Uma cerveja para cada gosto e ocasião (Manuel Paquete)
- Anibal Santos

- 12 de jul. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de ago. de 2020

Publicado na revista atuaLis, n.º 28, de Outubro de 2017
Texto: Manuel Paquete
“A espessa e insípida cerveja, essa atroz beberragem dos países do setentrião”, assim se pronunciava, sobre aquela bebida, o escritor e etnógrafo Consiglieri Pedroso, nos alvores do século XX. Se bem que no país se contassem, então, algumas fábricas de cerveja, esta não gozava da grande popularidade alcançada algumas décadas depois. Antes disso, o país, marcadamente vinícola, tanto em termos culturais, como sobretudo económicos, viveria o tempo em que “beber vinho (era) dar o pão a um milhão portugueses”, ao mesmo tempo que se condicionou o sector cervejeiro.
A primeira notícia do fabrico de cerveja em Lisboa remonta a 1689, precisamente através duma queixa ao rei, a propósito da existência duma fábrica no Campo Grande e sobre a ameaça que a bebida constituía, pois que ainda que “sendo estranha ainda, se faça natural, perderá totalmente o uso do vinho e tirará o interesse das vinhas”.
Os receios dos queixosos foram atendidos, acabando por se perder o rasto à dita fábrica e também proibida a importação de cerveja com uma lei promulgada em 1710.
Só teremos novos sinais de fabricantes de cerveja em Lisboa nos finais do século XVIII, numa conjuntura política mais favorável ao estabelecimento de novas indústrias. Ainda assim, dadas as várias dificuldades sofridas, a inépcia desta indústria arrastou-se até à implantação do Liberalismo e o fim dos privilégios exclusivos dos fabricantes instalados. A abertura da Fábrica da Trindade, em 1836, pelo galego Manoel Moreira Garcia, no antigo convento dos Frades Trinos, extinto em 1834, na Rua Nova da Trindade, foi um dos vários fabricantes que se instalaram antes e depois deste período. Subsiste a Cervejaria da Trindade: um espaço icónico dos amantes da cerveja. A fábrica seria dissolvida, já noutra conjuntura histórica e económica, no consórcio lisboeta que se designou Sociedade Central de Cervejas (SCC), em 1934, com outros fabricantes: Companhia Produtora de Malte e Cerveja Portugália, Companhia de Cervejas Estrela, Companhia de Cervejas Coimbra e Companhia da Fábrica de Cerveja Jansen.

Entretanto no Porto, onde haviam surgido vários fabricantes na segunda metade de Oitocentos, formou-se outro consórcio, em 1890, reunindo sete fábricas de bebidas gasosas, licores, conhaque e cerveja: a Companhia União Fabril Portuense (CUFP), antecedente da actual cervejeira Unicer.
Durante o Estado Novo (e praticamente até hoje), o mercado foi dominado pelos dois grupos: a CUFP, no Porto e a SCC sedeada em Lisboa, com as respectivas marcas Super Bock, desde 1929, e Sagres, de 1940. O condicionalismo industrial que beneficiou ambas as empresas terminou pouco antes do 25 de Abril. Vencidas as barreiras do proteccionismo pró-vinícola, a cerveja generalizou-se, seduzindo o público consumidor, não apenas o urbano, com uma publicidade imaginosa e cada vez menos sexista no que tocava às bebidas alcoólicas. Curiosamente, o vinho terá sido a bebida que mais tempo permaneceu como associada ao universo “masculino”. E eis que em 1989, pela primeira vez, o consumo per capita de cerveja bateu o do vinho…
Contudo, a “cultura” cervejeira no país permaneceu limitada às ofertas duma indústria sem os pergaminhos históricos dos típicos países fabricantes e consumidores. A lager, obtida por baixa fermentação, foi o tipo de cerveja que serviu os requisitos da acentuada industrialização do sector, face à heterogeneidade da produção em grande parte artesanal que vigorou até meados do século XIX. A concentração industrial e a erosão das particularidades foram, aliás, as grandes tendências, a nível mundial, até aos nossos dias.



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