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A Circulação do pão e o Princípio da Reciprocidade (Maria José Araújo)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 28 de jun. de 2020
  • 9 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020

Publicado na revista Sítios e Memórias, n.º 3 , de Julho de 1997

Autor: Maria José Araújo

Fotografias: Concha Rozas




Decorrendo a nossa experiência de vida numa sociedade de matriz judaico-cristã, todos reconhecemos no pão um alimento de valor excepcional, do ponto de vista alimentar, mas sobretudo ritual e religioso. A observância de regras rigidamente determinadas no manuseamento deste alimento (que, por exemplo, não pode ser colocado com a base voltada para cima e que rapidamente é apanhado e beijado quando acidentalmente cai no chão, como se beija a cruz) são indicadores de que nos encontramos perante um alimento sagrado. É esta reflexão que sugerimos no presente texto, centrando a nossa atenção num pão ritual em que encontramos maximizados os aspectos que dão testemunho do estatuto particular deste alimento: o folar da Páscoa. É pela mão de D. Clementina Trindade, de setenta anos, da Vermelha, Cadaval, que nos é dado notar como logo desde a confecção o carácter excepcional do pão se revela.

Quem observe uma cozedura, confecção do pão, constata a rigorosa observância de determinados procedimentos que indicam estarmos em presença de um alimento especial. Apesar de ser porventura o mais comum dos alimentos e um dos mais acessíveis ("toda a gente come pão"); pela sua proveniência e pelo seu significado, é objecto de uma classificação à parte: "O pão foi criado directamente por Deus e com ele ninguém brinca." São aliás a universalidade do consumo do pão e as suas possibilidades sacíadoras e revivificadoras que parecem conferir-lhe este carácter sagrado.

Estas características fazem que seja tomado como símbolo de todo o alimento e da permanência em vida. Sendo o pão doméstico de consumo diário o mais corrente, outras espécies são reconhecidas. A de valor religioso mais elevado é a hóstia sacramentada que vale como o próprio "corpo de Cristo". Porque se trata de um pão ímpar, as hóstias" são guardadas num sítio especial e alumiadas dia e noite". É por participar do valor espiritual da hóstia consagrada que maximamente simboliza o Verbo e a Vida que os outros tipos de pão também são sagrados.

Entre estes, alguns que parecem situar-se ambiguamente entre o pão e o bolo. Manuel Camacho Lúcio (1) refere os "bolinhos de amassadura" feitos à base da massa de pão, aproveitando-se a cozedura semanal para obter uma sobremesa. Augusto Gomes (2) inclui a receita de folares de massa sovada entre as receitas de pão. E segundo Alfredo Saramago, há que reconhecer a existência de um pão ritual específico "para todas as ocasiões do calendário, principalmente do calendário litúrgico...Pão de Natal, de Carnaval, de Páscoa, assim como pão das colheitas das vindimas, etc."(3) A própria D. Clementina considera ser o folar um pão com ovos "para diferençar do pão normal" (sic). E, de facto, os procedimentos rituais que observa são os mesmos, quer para fazer pão corrente quer para fazer os folares de Páscoa. A par dos gestos técnicos necessários à feitura do pão, um conjunto de práticas rituais devem ser escrupulosamente observadas.

A cozedura é iniciada e termina com o sinal da cruz, em reconhecimento de que se está em cumprimento de um trabalho sagrado. Não sendo a cozedura uma tarefa banal, também o tempo em que decorre não é ordinário: “Concentro-me nisto que estou afazer.” A uma inconveniência dita ou feita neste período, segue-se imediatamente um acto de contrição, “peço logo perdão a Deus”. As benzeduras acompanham-se de récitas no género “que Deus te acrescente para toda a gente”. Estas são de especial importância quando a massa é posta a levedar. Uma variante faz mesmo alusão explícita à importância do crescimento da massa: “Que Deus te ‘aiebede’ que Deus te acrescente para mim e para a minha gente (sic).” Após ter levedado, quando vai ser dada forma aos pães, a massa é sujeita ao sinal da cruz e os cinco dedos nela cravados simbolizam as cinco chagas de Cristo. Apesar de introduzidos profundamente, os dedos não ficam marcados, porque, após ter levedado, a massa está suficientemente elástica para voltar à configuração inicial, ovalada. Separam-se entretanto cerca de 50 gr. (crescente) que constituirão o fermento a utilizar na cozedura seguinte. Esta pequena porção é conservada em lugar fresco e seco, salpicada com pedras de sal e também sobre ela é desenhada a cruz. Quando não se encontra disponível na casa, é tomada de empréstimo de casas vizinhas ou, nos nossos dias, pode adquirir-se facilmente nas padarias. Quando os bolos são postos a cozer, novo sinal da cruz à boca do forno acompanhado da récita.

Como se vê, a invocação do sagrado é continuamente reiterada durante a cozedura. Este facto fundamenta-se na origem já referida do pão: Deus. A atmosfera grave em que os trabalhos se desenrolam, as palavras pronunciadas quando das benzeduras, as cinco chagas impressas na massa e a levedação remetem para o prodígio da multiplicação dos pães, enquanto afirmam o reconhecimento de uma comunidade que comunga mediante a partilha e a comensalidade do pão, da paixão e da vida de Cristo: “Quando Jesus ressuscitou, estava ali um ajuntamento de gente a assistir. Então, Jesus acrescentou os pães para chegarem para aquela gente toda (sic).” Embora a explicação de D. Clementina não corresponda em rigor à narrativa bíblica, que situa o prodígio da multiplicação dos pães noutro momento que não o da ascensão, é de notar que é a exemplaridade do gesto divino de partilha do pão que norteia a atitude perante este alimento e os homens: o pão, obrigatoriamente será objecto de repartição, como expressa a frase tantas vezes ouvida “ o pão não se nega a ninguém”.

Sendo que várias passagens da vida de Cristo são evocadas, a título de justificação do carácter sagrado do pão (especialmente as que referem a sua dimensão sacrificial e redentora), o pão de Páscoa ou folar dá ênfase à vertente jubilatória da fé em Cristo, “os ovos do folar são a ressurreição. Quando Jesus foi pregado na cruz, os soldados que o mataram viram por ali um galo morto e disseram para o Senhor: Tu ressuscitas quando aquele ali também ressuscitar.’ E antes de Jesus ressuscitar, ressuscitou o galo. É por causa desta história que também se come o galo na Páscoa”.

Como acabámos de ver, o pão detém esta qualidade especial de ser um alimento que integra o Verbo. É este princípio que todas as variantes do pão partilham. É também neste facto que reside o seu valor excepcional. A par do valor alimentício, e tão importante como este ou mais, a circulação do pão ou dos seus sinónimos numa rede de parentela “de sangue”, “espiritual”, de vizinhança ou de amizade, equivale à circulação indispensável à vida cristã, da Palavra. É pelo que significa do ponto de vista espiritual e social, é porque uma ética cristã se lhe associa que “ em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”, significando aqui a falta de pão, falta de harmonia, entendimento e pureza. Analogamente, em oração, o pedido de remissão dos pecados e portanto o ideal de vida em pureza e comunidade associa-se à solicitação do pão: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje; e perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido.”

Em Ensaio sobre a Dádiva, Mareei Mauss argumenta no sentido de constituir a troca um princípio fundador da vida em sociedade. Retomando esta proposta, Lévy-Strauss considera mesmo que a antropologia se poderia resumir ao estudo das diversas modalidades de troca. Assim, os sistemas de parentesco têm por base a circulação por troca ,de pessoas, no caso mulheres (por exemplo, numa modalidade simples de troca restrita, eu, homem do grupo A, dou uma mulher, minha irmã ou filha ao grupo B, que me retribui, reciprocando, uma mulher desse mesmo grupo). A todos os níveis (económico, linguístico, ritual), se encontra a troca. Sociedade ou grupo que não se adeqúe ao imperativo social de “sair de si” a que a troca obriga é autofágica e está destinada à morte (4).

Garante da sobrevivência física, o pão é também garante da sobrevivência espiritual, sendo porventura esta a instância em que amplamente se cumpre um ideal de vida cristã. Consequentemente, é porque ao ofertar pão, mais que o alimento para o corpo, é o alimento para o espírito que é ofertado, que este alimento entra na categoria dos que não podem negar-se (mesmo em prejuízo do ofertante) a quem o solicite. Negá-lo equivaleria a negar ao outro como a si próprio (contrariando a exemplaridade do gesto de Cristo, interrompendo o ideal de recipro­cidade por ele inaugurado) a integração pelo Verbo numa comunidade vivendo em reconhecimento da Palavra. À luz da teoria de Lévy-Strauss, parece-me, portanto, reducionista uma análise destes factos perspectivada apenas em termos da troca económica. A circulação do pão em geral, e sobretudo no que refere ao pão pascal, ganha inteligibilidade quando percebida do ponto de vista das trocas rituais, de palavras e mensagens. Na altura em que se celebra a paixão e ressurreição de Cristo, o pão que emblematiza este período jubilatório e crucial para a fé católica é um pão festivo ornamentado com os símbolos da fecundidade, prosperidade e renascimento: os ovos.

Cumpre um papel importantíssimo no reforço dos laços sociais porque, destinado a uma circulação intensíssima, obrigatoria­mente leva ao referido "sair de si” em gestos simétricos de dádiva, contradádiva, reciprocidade e vida.


Receita da Dona Clementina para fazer o seu folar na próxima Páscoa

Num alguidar misture: 4Kg de farinha, fermento (crescente do pão ou comprado na padaria), sal, 2 Kg de açúcar, 1 pacote de bicarbonato de sódio, 1 pacote de erva-doce, 1 pacote de canela, 6 ovos, a raspa de dois limões. 250 g de margarina de origem animal e igual quantidade de margarina de origem vegetal, água. Benza-se antes de iniciar a amassadura. Amasse até os ingredientes estarem bem misturados e a massa macia, mas consistente. Nesta altura, tape o alguidar com um pano branco e faça o sinal da cruz dizendo: “Deus te acrente para toda a gente”, ou “ Deus te ‘alebede’ Deus te acrescente para mim e para a minha gente”, ou ‘Tarrenego Diabo”, ou ainda “Deus t'acrescente e com saúde coma a gente. Ele a crescer e a gente a comer. Tudo por Deus há-de ser.” A massa deve, depois de levedada, aparentar o dobro da quantidade inicial. Para se orientar, pode colocar uma pequena tira no interior do alguidar, calculando aproximadamente o nível que esta deverá atingir. Depois de levedada, amasse um pouco mais formando um bolo. Imprima na massa o desenho da cruz com o cutelo da mão, repetindo a récita escolhida. Enterre os cinco dedos de uma mão na massa enquanto diz: “Estas são as cinco chagas de Cristo.” Forme os bolos, colocando um ovo cru no topo, sustido com tiras de massa em cruz, pincele-os com um ovo batido, coloque-os num tabuleiro com a base enfarinhada e leve ao forno durante aproximadamente 20 minutos. Repita a cruz à boca do forno e a récita. Quando os bolos estiverem prontos, retire o excesso de farinha da base com uma escova macia (A D. Clementina usou uma escova de bebé que sempre serviu exclusivamente para este efeito).

Importante: Tenha sempre uma faca ou uma garrafa de vinagre presente num canto da masseira (mesa de bordos elevados em que se procede à divisão dos bolos). Se não conseguir a levedação, coloque ao lado do alguidar um destes elementos masculinos (5): a faca, a garrafa de vinagre ou, ainda, um chapéu do homem da casa ou umas calças deste. Se nada disto resultar, chame o próprio homem que se sentará ao lado da masseira aguardando pacientemente que a massa levede. Garante-se o resultado.

NOTAS:

(1) Lúcio, Manuel C., Cozinha Regional do Baixo Alentejo, Lisboa, Presença, 1986.

(2) Gomes, Augusto, Cozinha Tradicional da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1982.

(3) Saramago, Alfredo, Doçaria Conventual do Norte, História e Alquimia da Farinha, Sintra, Colares Editora.

(4) Margaríta Xanthakou põe em evidência a correlação que a tradição oral neo-helénica estabelece entre o incesto (recusa em sair de si) e o endocanibalismo ou canibalismo familiar. Uma das lendas que apresenta, recolhida no séc. XIX pelo folclorista Nikolas Politis, é a seguinte:

Um rei casou com uma princesa e desta união nasceram dois filhos. Mais tarde, ardilosa­mente, casou-se de novo com a irmã da primeira mulher (quebrando o interdito de união com duas irmãs, situação configurada como incestuosa, uma vez que, por intermédio do marido comum, dois seres consubstanciais como o são duas irmãs entram em contacto sexual. Atente-se que, deste modo, são as duas irmãs que formam o par incestuoso). A primeira mulher foi mantida oculta, numa cave. Descoberta a situação, a segunda esposa liberta a irmã e, para se vingarem, as duas matam os filhos do rei (filhos também de uma delas e sobrinhos uterinos/enteados da outra), cozinham-nos e servem-nos ao rei dizendo :“Come, é bom como a tua própria carne!” Ao ingerir literalmente o filho, também o rei é submetido a uma situação de incesto involuntário, sendo o incesto entendido como o cúmulo do idêntico.

Na nossa sociedade vigora a pressuposição iargamente generalizada de que o fecha­mento incestuoso sobre si próprio é castigado com o estigma de uma demência que recai sobre a progenitura resul­tante deste tipo de uniões.

Recordemos ainda que é o exercício obsessivo da autocontemplação que está na origem da morte de Narciso.

(5) cf. Pina Cabral, João de, Filhos de Adão, Filhas de Eva. A Visão do Mundo Camponesa no Alto Minho, Lisboa, D. Quixote, 1989.

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