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Santarém, a Capital do Gótico (Luís Nazaré)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 9 de jul. de 2020
  • 9 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020




Publicado na revista Turismo Cultural, n.º 8, de Julho/Setembro de 1993


Texto: Luís Nazaré

Fotografias: Rui Mendonça e Trifoto

Santarém, após a reconquista em 1147 por Afonso Henriques, tomou-se uma das principais vilas do novo reino de Portugal. Durante a dinastia afonsina, no período da implantação e expansão do Gótico, Santarém cresceu e alargou-se para além das suas muralhas. Foi residência real e capital do reino no tempo de D. Afonso III e depois, durante os vários reinados que se seguiram até D. Fernando, continuou a abrigar a corte por longos períodos de tempo, com as consequentes vantagens. O apoio real à implantação de várias ordens religiosas em Santarém desempenhou um papel dinamizador no processo de crescimento da vila. A importância de Santarém no período gótico, nos séculos XIII a XIV, deve-se ao seu valor estratégico e à riqueza dos campos do seu termo. Santarém medieval estava organizada urbanisticamente como a maioria dos urbes de então, em eixos tortuosos de ruas direitas cingidas por uma cinta acastelada. Possuía uma intensa actividade comercial, com mercadores, açougues, estalagens, armazéns e feiras. A presença intensa da corte, da nobreza e de funcionários reais criou um clima propenso ao desenvolvimento da arquitectura e de outras artes sumptuárias. É esta importância política, social e estratégica de Santarém que justifica a presença de algumas das mais notáveis criações do Gótico português. A interligação entre o contexto político, económico, social e cultural, do Portugal medieval permitiu, no século XIII, o despontar de uma arquitectura nacional , fenómeno que, como afirma Pradalié, teve lugar "não em Coimbra ou em Lisboa, mas em Santarém"(1). De facto, o conjunto de igrejas e conventos edificados nesta vila representam o triunfo do Gótico primitivo, mendicante, em relação ao pesado e recolhido Românico existente. Ainda hoje, apesar dos cataclismos naturais e do vandalismo dos homens, Santarém possui um conjunto de monumentos, de túmulos e objectos vários da época gótica, muito difícil de encontrar noutra terra em Portugal. Possui também um valioso espólio manuelino e importantes monumentos maneiristas e barrocos, mas achamos que nenhum outro estilo se sobrepôs ao Gótico.

A legenda de "capital do gótico" foi atribuída a Santarém por Vergílio Correia, quando, acompanhado pelo estudioso escalabitano Zeferino Sarmento, pesquisava elementos e referências para o seu livro Os Três Túmulos, quando, perante tão grande quantidade e qualidade de achados góticos, escreveu: "Preocupa-do com o estudo do gótico em Portugal, foi em Santarém que encontrei viva e homogénea uma documentação arquitectónica e escultórica rica de ensinamentos e, por si só, suficiente para o início de um trabalho dessa orientação. Santarém é, de facto, em Portugal, a capital do Gótico tanto na arquitectura como na escultura!" (2).

Depois desta introdução, talvez possamos percorrer, no espaço e no tempo, o Gótico santareno. Começamos por registar que não vamos pura e simplesmente esquecer, dentro deste contexto, a Igreja de São João de Alporão, mas esta igreja, situada no centro da cidade, apresenta características proto-góticas, com soluções estéticas em que apontava já o estilo nascente, que surgiria fora de portas, com as novas ordens. O período Gótico em Santarém inicia-se com a construção, pelas ordens mendicantes, das grandes igrejas e conventos de São Domingos, de São Francisco e de Santa Clara, a que se seguiram o Convento das Donas e outras igrejas de menores dimensões. Este conjunto monumental que, com o cenóbio dos Trinitários, formava um cordão protector da vila, em volta da cintura mura-lhada, constituiu uma expressão real do crescimento de Santarém nos séculos XIII e XIV. Vergílio Correia já não viu São Domingos destruído pela mão do homem em 1839, mas estudou São Francisco. o que, embora muito degradado, lhe permitiu projectar o convento dos prega-dores, pois, como dizem os cronistas, os dois cenóbios eram muito idênticos e foram construídos pelo mesmo monarca.


Luz Gótica

O Convento de São Francisco e a Igreja de Santa Clara, felizmente, podem ser visitados e estudados ainda hoje, permitindo-nos avaliar qual a estética e a funcionalidade da arquitectura mendicante. Projectando-se em espaços amplos com cobertura de madeira, abobadando apenas as capelas das cabeceiras, que eram geral-mente cinco, as igrejas eram de três naves, com transepto saliente. Os templos mendicantes procuravam já o efeito da anulação das paredes, e a entrada da luz gótica era feita por altas janelas. Como mandava o rigor mendicante, a decoração destas duas igrejas era pobre, com capitéis finos de escultura vegetalista. As igrejas mendicantes não possuíam torres altas, mas apenas torres sineiras. Assim acontece com estes templos.

O Convento de São Francisco constitui uma ilustração da arte em Portugal, pois nele foram inseridos elementos góticos mais tardios, de que falaremos mais tarde, assim como outros dos vários estilos que se seguiram.

Do Gótico ainda inicial, mas mais rico que o das ordens mendicantes, é o Gótico dionisino, do qual Santarém possui alguns exemplos, como a pequena Igreja de Santa Cruz, no Vale do Gaião, no caminho da Ribeira. Este templo de três naves e com três tramos projecta, segundo alguns historiadores, a Igreja da Graça, constituindo uma jóia do Gótico escalabitano. Esta construção não tem transepto, sendo apenas a capela-mor abobadada, com nervuras de cruzaria de dois fechos. A luz entra em pleno na abside por cinco largas frestas geminadas, uma por cada pano. O corpo da igreja é ainda iluminado por duas janelas maineladas, abertas no andar superior da nave central. A decoração dos capitéis é feita com motivos florais e zoomórficos. O portal que Vergílio Correia não viu, por na época se encontrar entaipado por outro de matriz barroca, foi descoberto durante as obras de restauro da Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais e devolvido aos nossos olhos, permitindo-nos avaliar agora mais um elemento ogival escalabitano. Da mesma época, com todas as características do segundo período gótico, ainda no Vale do Gaião, podemos admirar um dos ex-líbris de Santarém, a famosa Fonte das Figueiras, um dos raros monumentos públicos no género que chegou aos nossos dias. Possui três arcos ogivais assentes em meias colunas. A abóbada é de tijolo, com nervuras. Na parede do fundo, rasga-se um nicho ogival de onde corre um veio de água. Em ângulo do encontro dos arcos, existem os brasões de D. Afonso III e de Santarém. O conjunto encosta-se a um pano de muralha com ameias, de uma época posterior. Voltando a S. Francisco, admiremos agora o coro-alto que ocupa actualmente os dois últimos tramos, junto ao portal, da nave central. Foi mandado construir por D. Fernando, por volta de 1380, bem no centro da igreja, onde ocupava três tramos. Foi transferido em 1588, para o lugar que hoje ocupa e é composto por duas abóbadas ogivais que se apoiam em quatro pilares poderosos, construídos em volta dos antigos pilares mendicantes da nave. Os capitéis são profusamente decorados com representações de cenas fantásticas e motivos vegetalistas. O coro define-se pelas arquivoltas que nascem daqueles fustes curtos. As ogivas, bastantes largas, reúnem-se em dois fechos de abóbadas redondos um numa grinalda de folhas de videira, representando o escudo de D. Fernando, e outro numa dupla coroa de hera que rodeia o brasão da rainha D. Leonor. Estamos perante o Gótico em pleno desenvolvimento: a Igreja da Graça anuncia-se.

O Gótico Flamejante

A Igreja de Nossa Senhora da Graça foi mandada construir em 1380, por João Afonso Telo de Meneses. De três amplas naves, cinco tramos de arcos em ogiva, assentes em feixes de colunas com os seus capitéis ornados com rostos lisos e barbudos, figuras estranhas e motivos flóridos. Possui um transepto largo e a cabeceira tem três capelas cobertas por abóbadas de nervuras. No fecho das nervuras da capela-mor, está o brasão do fundador. A igreja é profundamente iluminada pelas janelas que se rasgam nas três naves, pelas quatro janelas duplas da capela-mor e pela maravilhosa rosácea, que é uma filigrana de pedra.

O Gótico flamejante da fachada da Igreja da Graça é de uma beleza exuberante e com uma harmoniosa congregação de proporções.

Vítor Senão descreve-a do seguinte modo: "Com o pórtico moldurado de cinco arquivoltas acaireladas e prolongamento em querena, finos capitéis vegetalistas, espelho de arcaturas cegas nos vãos, que definem a moldura envolvente, e friso cimeiro de florões incorporando o remate do arco conopial em conjunto que se alarga à rosácea flamejante, com bordadura de raios de singular efeito." (3)

A Igreja do Convento dos Agostinhos da Graça é um dos mais representativos monumentos da cidade. Tavares Chicó considera-a "como um dos mais perfeitos exemplares da corrente gótica nacional".

Depois desta sumária descrição de alguns edifícios, estrutural-mente góticos, ainda podemos ver elementos deste estilo noutros locais, como nos arcos da Capela de Nossa Senhora do Monte, no cruzeiro da Igreja do Milagre, no edifício do Seminário Patriarcal, antigo Paço Real, entre outros.

A tumulária gótica em Santarém

Como atrás descrevemos, Santarém possui valiosos conjuntos monumentais que nos mostram como esta cidade é rica em construções góticas, permitindo-nos ainda acompanhar a evolução do estilo ogival através do tempo. Poderemos, de igual modo, percorrer o riquíssimo espólio tumulário existente nos templos escalabitanos.

Tentaremos apresentar alguns dos exemplares mais significativos, pois a descrição tumulária de Santarém não cabe num artigo desta natureza. O conjunto de vestígios tumulários santarenos dão para constituir um museu sobre a temática, o que, aliás, se pensa fazer quando da recuperação do Convento de S. Francisco.

Na Igreja de S. Nicolau, Capela de S. Pedro, vamos encontrar o túmulo de Fernão Redondo, monumento nacional, datado de 1360. É uma arca de calcário, com uma estátua jacente, bastante naturalista, daquele fidalgo. A cabeça repousa em almofadas e o rosto encontra-se um pouco desfeito, os panejamentos são identificáveis da época. Contém uma inscrição gótica no rebordo da arca.

Outra peça tumulária significativa do inicio do Gótico encontra-se na Igreja de Santa Clara: é o primeiro túmulo de D. Leonor Afonso, filha de D. Afonso III, que morreu em 1319, com fama de santidade.

Esta "jóia da tumulária trecentista", construída por volta de 1325, é de uma execução rigorosa. Este túmulo encontrava-se enterrado no corpo da igreja. Os restos mortais da Infanta tinham sido transferidos para outro túmulo em pedra alta, em 1364, e que hoje se encontra na Igreja da Graça.

Voltando ao túmulo primevo, que foi descoberto por Zeferino Sarmento em 1937, é urna arca a que falta a cobertura. Possui nichos com esculturas, separadas por edículas, cinco de cada lado, nas faces laterais, e dois em cada cabeceira. Numa das faces laterais, estão franciscanos dois a dois, conversando ou lendo, noutra face, estão claristas nas mesmas posturas. Na cabeceira do topo estão cenas de S. Francisco recebendo os estigmas e, na testeira, cenas da Anunciação de Nossa Senhora e a Virgem e o Anjo.

Do enorme recheio tumular que se encontra no Museu Arqueológico de S. João de Alporão, salientaremos, no que se refere ao Gótico, o cenotáfio de D. Duarte de Meneses, de que falaremos mais adiante, e as arcas tumulares de Martim e João de Océm. Estes foram cavaleiros-letrados da casa de D. João 1. Martim era tio de João de Océm.

Os túmulos não foram executados em conjunto, mas são muito semelhantes nas suas proporções, na sua rudeza, na sua de-coração. Possuem estátuas jacentes idênticas, com os escudos de cada um nas paredes e com os epitáfios em letra gótica no rebordo da arca. Matos Sequeira descreve-os acrescentando: "Com as mesmas garnaxas de tipo religioso, os capelos descaídos das cabeças chamorras que se coifam de barretes colantes, espadas na mão direita e livros na esquerda". Deixemos, por agora, S. João e os seus inúmeros vestígios góticos e visitemos a Igreja da Graça, onde também se encontra um riquíssimo espólio de túmulos góticos.

O túmulo de D. Pedro de Meneses é o mais grandioso monumento funerário existente na cidade. Neto do fundador da igreja, 1.° conde de Vila Real e o primeiro governador de Ceuta, D. Pedro de Meneses morreu em 1437. O seu túmulo é uma arca de calcário, assente em oito leões, com estátuas jacentes do conde e da sua primeira mulher, D. Margarida de Miranda. É uma cópia do moimento real da Batalha. Encontra-se envolvido por uma profunda decoração flórida de ramos de zambujeiro, com os brasões dos Meneses nos topos. Trinta e cinco vezes se repete a palavra "aleo" em volta de toda a arca.

Voltemos a S. João de Alporão para descrever o cenotáfio de Duarte de Meneses. É talvez o mais importante dos túmulos góticos de Santarém. Esteve primitivamente na Capela das Almas, do Convento de S. Francisco. Foi executado em data posterior a 1464, data da morte do Conde de Viana. É dos melhores exemplares do Gótico final. É inspirado nos túmulos da capela dos fundadores da Batalha.

Trata-se de uma estrutura, em jeito de pórtico, com uma exuberante decoração flamejante, com um grande arco conopial, ladeado por duas pilastras de pináculo. A decoração é filigrana pura, com uma profusão de arquinhos, nichos e botaréus. Esta exuberante decoração quase esconde a estátua jacente que se encontra no mausoléu.

Muitos túmulos ficam por referir, talvez mais importantes do que aqueles que tratámos, mas é muito difícil referenciar toda a tumulária gótica escalabitana. Não queremos deixar de anotar que o túmulo do rei D. Fernando, que actualmente se encontra no Museu do Carmo, é um monumento funerário que pertence a Santarém e a ela deve retornar.

NOTAS:

(1) PRADALIÉ, Gerard, O Convento de S. Francisco de Santarém, Santarém, 1992, p. 15.

(2) CORREIA, Vergílio, Os Três Túmulos, Coimbra, 1924.

(3) SERRÃO, Vítor, Santarém, Lisboa, Editorial Presença, 1990, pp. 44-45.

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