Pavilhão Chinês, um bar clássico sob o signo do coleccionismo (Fernando Brito)
- Anibal Santos

- 8 de dez. de 2020
- 4 min de leitura

Publicado na revista ENTRECOLINAS, edição n. 2, de Outubro de 2017.
Texto e fotografias: Fernando Brito.
(O autor escreve segundo o anterior A.O.)
Um encanto à primeira vista para os neófitos. Uma redescoberta, sempre, para os repetentes. O nome, Pavilhão Chinês, reveste-se logo de um certo exotismo. E o bar, entre a atmosfera de antiquário e o convite a um copo e à conversa, sem o peso da música, aqui à escala ambiental, sublimam o mundo maravilhoso que habita à meia luz das cinco salas temáticas, contíguas, dos dois bares, cujas paredes e tectos se revestem de milhares de objectos e peças de colecção.
Deve-se a Luís Pinto de Coelho [1933-2012] colecionador inveterado, também criador de outros bares em Lisboa (Procópio, A Paródia e Fox Trot), a abertura do Pavilhão Chinês, em 1986 , no lugar onde existiu a mercearia homónima, datada de 1901, no nº 85 da Rua D. Pedro V, às portas do Príncipe Real.

O novo bar serviu de sítio de guarda e exposição das suas colecções, que incluem desde peças de Bordallo Pinheiro, da Fábrica de cerâmica das Caldas da Rainha, passando por soldadinhos de chumbo e outras peças de militária, bandeiras, miniaturas de toda a espécie, pratos, canecas, caricaturas, bustos, desenhos, pinturas, cartazes…
O serviço foi desde o primeiro momento outra atracção, pela variedade e amplitude da oferta. Desde logo uma novidade: um lugar em que se servia vinho a copo; uma tradição que se mantém.
Os cocktails, mais de cem, os chás, e toda a sorte de bebidas são os ingredientes seguros para umas horas de conversa numa intimidade que não é perturbada pelos que vão satisfazendo a curiosidade deambulando, quase museologicamente, pelas salas do bar.
Falámos com António Pinto, sócio gerente do Pavilhão Chinês, que nos guiou um pouco pelo espaço e tempos deste bar que se mantém fiel ao seu espírito original, não se perfilando a gostos passageiros. De acordo com as características locais e os tempos que correm, são os turistas que predominam, alertados muitas vezes por amigos, nos países de origem, para a obrigatoriedade de conhecer este bar.
Estamos no espaço duma antiga mercearia…
Sim. Isto aqui era uma mercearia, do princípio do século XX, que encerrou ao fim de cerca de 80 anos. Por uma fotografia antiga, percebe-se que esse estabelecimento, com o seu mobiliário e artigos em exposição, já tinha um certo exotismo. Já se chamava Pavilhão Chinês. Foi esse o nome que ficou, quando o bar abriu.

Pode falar-nos um pouco da abertura do Pavilhão Chinês?
O mentor deste bar foi o Sr. Luís Pinto Coelho (LPC), já infelizmente falecido. Os objectos e peças que servem de decoração eram da sua colecção. Coisas que foi adquirindo, desde muito jovem, em leilões, antiquários, a particulares, no país e no estrangeiro.
E o Sr. António Pinto acompanhou a abertura?
A minha relação com Luís Pinto Coelho remonta ao tempo de A Paródia, um bar que abriu em 27 de Abril de 1974, em Campo de Ourique, e que na altura foi um êxito. Depois, também o acompanhei na abertura do Fox Trot, em 1978, no Príncipe Real. Por fim, após cinco ou seis anos de trabalho, o Pavilhão Chinês abriu em 18 de Fevereiro de 1986.
E o espaço foi sempre assim desde o início ou sofreu alterações?
Quando o bar abriu tinha apenas três salas; depois abriu a sala com uma mesa de bilhar; hoje tem duas mesas. Depois abriu a outra sala. Ao todo são cinco salas, tematicamente distintas. Ao longo dos anos, LPC também foi adquirindo novas peças…

E a aceitação junto do público? Foi um sucesso imediato?
Sim desde logo. Era um bar bonito e agradável. Chamou logo a atenção. Também já existiam as experiências semelhantes, embora em ponto mais pequeno, do Procópio, nas Amoreiras (desde 1972), de A Paródia e do Fox Trot.
O Pavilhão Chinês teve sempre uma clientela, social e etariamente diversificada, que se manteve até aos nossos dias. A única mudança, recente, foi o grande crescimento do turismo. Há pessoas que vem de todo o lado, muitas vezes, por conhecimento de amigos que lhe falaram do bar e, movidos pela curiosidade, tocam à campainha. Quando entram aqui ficam espantados e a primeira reação é a de percorrerem as paredes com o olhar e deambular por todas as salas…
A clientela mudou?
De certo modo, sim. Inicialmente eram clientes portugueses e alguns clientes habituais, hoje praticamente não há clientes habituais. Predominam os clientes eventuais, estrangeiros. Explicações? Por um lado, o poder de compra dos nacionais, que não é lá grande coisa. Também se poderá falar numa mudança de gosto. E repare, hoje já não muitos bares deste género, onde se pode conversar. Predominam os sítios musicalmente barulhentos ou sem espaço para estar um bom bocado de tempo a conversar.
E sobre o serviço, afinal o aspecto mais importante, o que caracteriza a oferta do Pavilhão Chinês e o que, possivelmente, o distingue dos outros bares?
Temos o que se pode caracterizar por um serviço clássico de bar, com serviço à mesa. Depois, dispomos de algumas particularidades desde que a casa abriu.
A primeira particularidade foi o serviço de vinho a copo. Hoje é corrente em muitos estabelecimentos do género, mas quando abrimos não era usual. Outra particularidade: o grande número de chás da nossa lista.
Entretanto fomos acompanhando algumas novidades e incluindo no serviço outras bebidas como caipirinha, bebidas brancas, cocktails, cervejas, cidra, chocolate, Irish coffee… E temos a diversão dos bilhares e a música ambiente.



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