Constância, Vila Poema (António Matias Coelho)
- Anibal Santos

- 14 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de ago. de 2020
Publicado na revista Turismo Cultural, n.º 1, de Março de 1991
Texto: António Matias Coelho (Licenciado em História, colaborador da Câmara Municipal de Constância no projecto Constância, Vila Poema)
Fotos: Arquivo
Situada no Ribatejo, região onde a terra começa a acalmar perdendo as violentas sacudidelas das serranias e vales da orografia nortenha, Constância parece emergir dos braços de água que a seus pés se entrelaçam.

Há terras que têm encantos muito especiais. São como certas pessoas: basta um olhar e fica-se preso à vontade de as conhecer melhor, de as desvendar mais profundamente, quando não de estabelecer com elas uma relação mais estreita.
Constância é uma dessas terras. As ruas são braços floridos que nos enleiam o olhar. As escadinhas são convites a um percurso pelo nosso passado, à descoberta de um presente que se quer de cara lavada e rosto levantado. As paredes brancas, a limpeza do chão que pisamos, o bom-dia de quem se cruza connosco são pedaços de ternura que vincam o carácter das terras diferentes.
Depois, Constância é mais que um nome de vila: é Tejo e Zêzere, é Camões, é calma, é gente, é encanto, é poesia. Constância tem nome de poema.
Diz-se que foi refúgio de reis e poetas, que acolheu D. Sebastião, que nela viveu Camões. Sobre as ruínas da Casa dos Arcos, memória do grande épico, irá erguer-se a Casa-Memória de Camões. O poeta, visto por Lagoa Henriques, contempla o Zêzere de um ponto onde bem pode ter estado há mais de quatro séculos, fixando o olhar na corrente de outras realidades. Mesmo ao lado, o Jardim-Horto com o seu nome leva-nos, pela mão das plantas, a distâncias longínquas, aos orientes da nossa identidade. De Camões é também a rua mais central da vila, a coluna vertebral do poema que Constância é.
Outros poetas amaram Constância. Não sabemos quantos, mas supomos que muitos foram — e são. Vasco de Lima Couto e Alexandre O'Neill são apenas dois nomes conhecidos de uma plêiade de amantes da beleza e dos encantos desta terra, anónimos na sua grande maioria, que buscaram aqui um refúgio, uma inspiração, ou apenas o prazer de estar num ambiente acolhedor.
Tejo e Zêzere encontraram-se aqui. A Natureza quis que aqui se encontrassem também os homens que dos rios viveram durante milénios.
O abraço das águas envolveu as gentes e fez deste local um ponto de encontro. Punhete primeiro, Constância agora, a vila foi sempre isso mesmo: um encontro, uma confluência, um abraço.
São idos os tempos em que os toros do Pinhal desciam o Zêzere em jangada e os barcos-de-água-acima iam e vinham, Tejo abaixo, Tejo arriba, numa azáfama constante, de Constância ao Mar da Palha. Hoje, são outros os caminhos e outros também os pretextos para o encontro dos homens. Do passado, ficaram os rios, a memória do tempo na organização do espaço urbano, um sítio de encontros feito vila, um jeito poético de estar debruçada sobre a vida e um olhar atento virado para o futuro.
D. Maria II chamou-lhe Notável e deu-lhe o nome de Constância. Nome de poema, nome de vila. Vila Poema.
Constância, Vila Poema é também nome de um projecto de animação cultural que aposta nos valores de uma terra com encantos muito especiais. Um projecto onde se encontram as memórias do Passado e as vontades do Presente. E que pretende, acima de tudo, que Constância, Vila Poema, agarrada à colina, antiga e fresca, continue, simples, mas bela, a encantar o poeta que há dentro de cada um de nós.

Constância, o Tejo e Zêzere
Depois dos romanos vieram os visigodos e os muçulmanos, e, em 1150, Punhete foi conquistada pelas hostes de Gonçalo Mendes da Maia — o Lidador.
No séc. XIV, a povoação ocupa já um lugar importante no quadro do comércio fluvial, rivalizando com Santarém e Abrantes nas suas competências e privilégios. Punhete adquire então independência judicial face a Abrantes, em cujo termo se incluia.
Será, porém, na entrada do último quartel do séc. XVI que se dá o justo reconhecimento do crescimento local, verdadeiro entreposto fluvial para as produções vizinhas, nomeadamente beirãs e alentejanas, no seu transporte para Lisboa. A pesca, abundante até há alguns anos atrás, quando as águas corriam mais limpas, pesou também na economia local. Em 1571, D. Sebastião concede foral e eleva Punhete à categoria de vila.


Em cima:
Jardim Horto Camoniano, com projecto do arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles.
Ao lado:
Monumento de homenagem a Camões, da autoria do professor-escultor Lagoa Henriques.
Convirá realçar, a propósito desta data, dois acontecimentos que relacionam o desventuroso monarca com a antiga Punhete: em 1569, veio o rei aqui refugiar-se da peste que castigava Lisboa; em 1577, D. Sebastião, que se encontrava em Punhete, anuncia à nobreza o seu projecto bélico de Alcácer Quibir. No ano seguinte, acompanham-no 40 cavaleiros da vila na malograda expedição.
Em 1755, a exemplo do ocorrido em todo o País, Punhete sofreu os efeitos do grande terramoto. Os trabalhos de reconstrução deixaram, porém, as características do antigo traçado urbano.
Outro estigma, que atravessou a calma bucólica da vila, ocorreu durante a 1.ª invasão francesa: as tropas do general Junot, chegadas a 24-11-1807, ficaram aqui retidas durante alguns dias, impossibilitadas de transporem o rio. Durante a sua estada, as tropas napoleónicas dedicaram-se à destruição. Mais tarde, durante a 3.ª invasão (1810), novas destruições impuseram novas obras de reconstrução.
Volvidas duas décadas, e desta feita mergulhado o País nas contendas internas entre absolutistas e liberais, o nome Punhete passaria para os anais da memória histórica. O decreto de 7 de Dezembro de 1836, assinado por Passos Manuel, secretário de Estado dos Negócios do Reino, e pela rainha D. Maria II, elevava «à categoria de Notável Vila de Constância, a antiga vila de Punhete».
O agraciamento ficou a dever-se ao «feito glorioso praticado pelos honrados habitantes da vila de Punhete, os quais no meio ainda de jugo ferreo, que opprimia a Pátria, foram os primeiros que espontaneamente alçaram o generoso grito da Aclamação dos Meus Direitos, e das Publicas Liberdades na Villa de Thomar em o dia 25 de Junho de 1833, a despeito mesmo de numerosas bayonetas leberticidas que longe de os fazer desmaiar, mais estimulavam o zelo verdadeiramente patriotico, que os animava em tão generosa, quanto infeliz tentativa, pelos sucessos que se lhe seguiram... » (A transcrição é um excerto da cópia do respectivo decreto).



Comentários