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Capela do Rato. Espaço de oração e de outros diálogos

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 30 de nov. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 8 de dez. de 2020


Publicado em São Mamede em revista, edição 11, de dezembro de 2010.

Autor: Manuel Paquete.

Fotografias: Arquivo.



Em 1835 encerrava a Real Fábrica de Louça do Rato, situada na antiga Calçada da Fábrica da Louça, hoje Calçada Bento da Rocha Cabral. O imóvel foi adquirido pelo 2.º Marquês de Viana, D. João Paulo Manoel de Menezes, proprietário do palácio vizinho, para aí construir a sua capela privativa. Construída em 1839, e enquadrada no mesmo palácio, segundo o projecto do arquitecto Manuel Joaquim de Sousa, a partir das estruturas já existentes, a capela obedeceu ao gosto neoclássico expresso nas colunas estriadas, nos capitéis híbridos, nos anjos, e nos estuques da autoria de Rodrigues Pita, de 1846, sublinhados a dourado, sobre o cromatismo dominante azul e branco.

No dia 14 de Dezembro de 1846, a capela foi dedicada a Nossa Senhora da Bonança. Um dos assistentes à cerimónia foi Almeida Garrett que documentou o acontecimento no opúsculo Dedicação da Capela dos Srs. Marqueses de Viana, datado do ano seguinte (Escritos Diversos, 1899).

Vale a pena seguir as impressões do poeta romântico: “ Todo o brilho da riqueza, toda a elegância das artes, todo aquele fino gosto que caracteriza o nobre marquês e as suas esplêndidas festas nos rodeava: a primeira sociedade de Lisboa ali estava, assistia o sr. Patriarca, oficiava o sr. Arcebispo de Mitilene (…). Mas erguida sobre todas as pompas da igreja e da sociedade estava a cruz de Cristo, estava a imagem da Virgem. (…) A invocação da Virgem é a de Nossa Senhora da Bonança; e a capela um voto feito pelos senhores marqueses vendo-se em perigo de vida na altura do cabo de Finisterra quando regressavam de França a Portugal em 1843, no dia 30 de Outubro. (…) A erecção da elegante capela é um remate digno do palácio e do dono dele”.

Sobre as “esplêndidas festas” do Marquês de Viana, organizadas no oitocentista palácio do Rato, ficou o testemunho de Fialho de Almeida, no livro póstumo Vida Errante (1925). Para além dos bailes, concorridos pela Lisboa mais rica e galante, o Marquês de Viana era também conhecido pela generosidade benemérita e piedosa. Por ocasião do incêndio que danificou a Igreja do Menino Deus, em 1848, ficando esta impossibilitada de aceitar o Sagrado Lausperene, no dia de Natal, segundo o hábito de rotação pelas igrejas de Lisboa, o Marquês de Viana, anuiu à ideia de permitir a continuação do Sagrado Lausperene na Capela de Nossa Senhora da Bonança, nas 40 horas em que competia àquela igreja.

Entretanto, a história da capela ficou ligada ao destino do palácio do Rato, hoje sede do Partido Socialista, e dos sucessivos proprietários até 1945. O palácio, que havia sido construído cerca de 1784, por Luís José de Brito, contador do Real Erário e tesoureiro das contribuições para a superintendência das Obras das Águas Livres, já estava na posse do Marquês de Viana em 1828. Em 1876, o imóvel foi vendido ao 1.º Visconde de Monforte, Luís Coutinho de Albergaria Freire. Em 1903, por morte do Marquês de Praia e Monforte, passa para seus filhos: D. Duarte, que herda a parte Poente, e D. Maria Francisca da Câmara, Condessa de Cuba, que herda a parte Nascente e a capela.

Esta foi então dedicada a Nossa Senhora de Conceição, “perdido que foi o seu lindo orago primitivo de Nossa Senhora da Bonança”, de acordo com Norberto de Araújo Peregrinações em Lisboa, Livro XI, 1993). Entre 1921 e 1924, a capela funcionou como sede da paróquia, por a Igreja de São Mamede se encontrar em obras de reconstrução após um incêndio. Finalmente, em 1945, por morte da Condessa, a capela foi legada, em testamento, ao Patriarcado de Lisboa.

A Capela do Rato foi palco de um dos mais memoráveis actos de resistência contra a guerra colonial. Na noite de 30 de Dezembro de 1972, um grupo de católicos deu ali início a uma jornada de 48 horas de greve da fome e de reflexão acerca da guerra, para assinalar o Dia da Paz (1 de Janeiro).

Foram presas 60 pessoas e, mais tarde, demitidos 12 funcionários públicos acusados de participarem na vigília. O Cardeal Patriarca, D. António Ribeiro, interveio exigindo a libertação de dois padres também presos, por não acatarem a ordem policial de encerramento da capela. No dia 10 de Janeiro, o Patriarcado condenava, numa nota divulgada na Imprensa, esta acção repressiva do Estado Novo. Primeiro silenciada, a vigília da Capela do Rato ecoou nas diversas acções de protesto contra as prisões e as demissões dos activistas, e acabou por atingir os níveis do Estado: o presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano, explicou-se na rádio e na televisão; na Assembleia Nacional, os deputados da “ala liberal”, Miller Guerra e Francisco Sá Carneiro, demitiram-se perante a prepotência do governo.

Este legado de diálogo entre a consciência cristã e as causas da justiça e da paz inspira hoje a acção do Pe. Tolentino de Mendonça, e da Comunidade da Capela do Rato, na busca de novas linguagens celebrativas. Como tal, a capela tem sido um espaço aberto a diversas iniciativas culturais com a participação de crentes e não crentes. Entre essas iniciativas, o projecto Diálogo Arte Contemporânea e Sagrado foi inaugurado em 26 de Fevereiro com a instalação do desenho Quando o Segundo Sol Chegar, de Rui Moreira, que ficou exposto até princípio de Maio, substituído, então, por uma obra de Gabriela Albergaria; em 23 de Maio, teve lugar uma missa de Pentecostes, composta por João Madureira, cantada pelo grupo Sete Lágrimas. Durante o tempo litúrgico do Advento, estará em exposição Anjo de Berlim, de Lourdes Castro.

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