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Os valboeiros e a pesca no Rio Douro (Joaquim dos Santos Marinho)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 6 de jun. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020



Publicado na revista Sítios e Memórias, ano II, n.º 6, Abril de 1998


Texto: Joaquim dos Santos Marinho

O valboeiro é um tipo de barco da família do rabelo e do rabão, todos barcos do Douro.

Os valboeiros dominam na sua navegação a parte acessível ao mar (do rio Douro, claro) e, tal como outros barcos deste rio, devem satisfazer algumas condições: como navegar em pouca água, serem rápidos, mesmo com vento fraco, e poderem evoluir com facilidade e rapidamente, como é frisado por Octávio Lixa Filgueiras e François Beaudouin. Octávio Lixa Filgueiras diz no seu trabalho Rabões da Esquadra Negra que "os valboeiros são barcos de pá e podem ser de carga ou passageiros e de pesca; todos eles são barcos de rio; os de pesca são os saveiros e podem ser de rio e de mar. São embarcações de fundo chato. Curioso é que, na construção dos barcos do Douro, se observam algumas práticas com sentido mágico. A 'protecção mágica' consiste:

1.ª cerimónia: na fase construtiva inicial e depois de pronto, no fundo chato é pregada uma cruz de trovisco e tem por fim combater o mau olhado.

2.ª cerimónia: no lançamento à água, o barco fica guarnecido com um festão de papel e um ramo de oliveira, respectivamente à proa e à ré, pretendo-se assim. festejar a realização da obra e assegurar-lhe boa sorte.

Havia ainda quem pregasse ferraduras e chifres de carneiro."

Utilizados pela colónia piscatória situada na freguesia de Valbom, no concelho de Gondomar, sobretudo na pesca do sável (pelo que se designam saveiros), hoje restam uns tantos barcos e quase nenhum pescador, pelo menos no activo.

Os que se dedicaram à faina e ainda (sobre)vivem só têm recordações. A construção das barragens no rio Douro e a poluição das aguas têm vindo a fazer desaparecer o sável e a lampreia.

Esta freguesia de Valbom, ribeirinha, situada num vale, como o seu nome deixa compreender, é a última antes do Douro entrar no Porto. Era uma zona privilegiada, pois ali residiram famílias distintas da cidade do Porto. como, por exemplo, a dos Correias Montenegros que em 1554 "tinha o privilégio de ninguém poder pescar ma metade do rio que lhe ficava em frente", (conforme referia a revista O Novo Ideal, de Agosto de 1992, n.° 9, p. 11). Nesta terra de Valbom, situa-se a Casa Branca, onde teve lugar a Convenção de Gramido, que fez terminar a guerra da Patuleia em 1847. Mas regressemos à colónia piscatória ali residente, que assentava principalmente no lugar de Ribeira de Abade e que, no século XII, contribuiu com grande quota-parte para a riqueza pública. Dispenso-me de citar números e juntar quadros estatísticos que, além de desnecessários, não caberiam no âmbito deste trabalho, cuja intenção é divulgar, muito simplesmente e muito resumidamente (referindo por isso o essencial), a existência é divulgar, muito simplesmente e muito resumidamente, (referindo por isso o essencial), a existência, desde há séculos, às portas da cidade do Porto, de uma actividade piscatória sui generis com barcos próprios aqui construídos e que, infelizmente, já quase não existe.

Sabe-se que já durante o reinado de D. Sancho II o rei recolhia avultados lucros do comércio marítimo e fluvial, que dava para ele e para o bispo. Os lucros da pesca feitos no Douro, dado o seu vulto, chegavam a provocar confrontos e desavenças entre o rei e a mitra do Porto. A indústria de pesca valboense era o grande centro.

O período de pesca do sável vai de Janeiro a Junho e são empregados vários aparelhos para apanhar tão saboroso peixe, como, e só a mero título de exemplo, o aranhão, que se arma com o saveiro bem amarrado de proa e popa nas revessas do rio que o sável procura. Este aparelho de pesca, tal como a cabaceira e o embalo, termo que também designa um processo de pesca usado no mar pelos pescadores da Afurada e da Aguda, é usado em Valbom e no Areinho (praia fluvial na margem de V. N. de Gaia) e os barcos utilizados são os saveiros, vulgo valboeiros.

Segundo Óscar Fangueiro (Artes de Pesca no Rio Douro Junto ao Porto no Início do Século XX, C. M. Porto, 1985/86, Vol. III), "este local de Valbom tem como vantagem o facto de o rio Douro formar um areal grande que principia na paragem das Pedras da Lavradeira até ao lugar da Ribeira de Abade, onde fica cómodo arrastar as redes de pescaria dos sáveis e lampreias; só os moradores desta freguesia de Valbom podem no dito areal pescar; havia uma quantidade de tributos a pagar pelos pescadores (exceptuando um peixe em cada dia, que é para a caldeirada); desde o dízimo à igreja, o condado (renda para o senhor do areal), aos cónegos da Colegiada da Cedofeita e ainda a Sua Majestade."

Como disse já, a actividade piscatória desta colónia de Valbom e os valboeiros são coisas cada vez mais raras. Mais raro, desaparecido mesmo, foi este postal que Júlio Diniz pintou em pinceladas breves em Uma Família Inglesa quando, a certa altura, escreveu: " As lanchas valboeiras tinham, naquele instante, chegado ao cais. As regateiras, os compradores particulares e os pescadores que vendiam, animavam o mercado do peixe na Ribeira do Porto." Acrescento eu que, embora existindo ainda hoje, no já várias vezes citado lugar de Ribeira de Abade, a antiquíssima banca com o letreiro de todo o ano e de todos os anos "Há lampreia", a dita e ainda menos o sável, quando os há, não são, regra geral, pescados por ali, no Douro. Os restaurantes (bastantes eles são) sediados na margem do rio já não servem como outrora, o belo petisco que é o sável frito, de escabeche e, sobretudo, as deliciosas mílharas, bem como a lampreia, com o mesmo sabor e pelo mesmo dinheiro, claro! O ciclóstomo e o sável são cada vez mais raros, principalmente este último, e os que aparecem não são de cá!

O único construtor, creio que ainda vivo mas já bastante idoso, de barcos rabelos reside em Melres, outra freguesia ribeirinha do concelho de Gondomar.

Quem quiser ver o referido ancião a dirigir a construção destes barcos e ver flutuar à beirinha de terra os valboeiros (os rabelos são mais conhecidos e eles ali estão na Ribeira do Porto para turista ver) é deslocar-se a Melres. E quem desejar saber como se constrói, quanto tempo demora e quanto custa um destes tipos de barcos ele explica tudo. Estórias sobre a faina e sobre os barcos... não há como atravessar o rio Douro, de Medas para Pé de Moura e vice-versa, e ouvi-las da boca do barqueiro. ■

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Nota: A base para este artigo foi o trabalho Os Valboeiros, de Ana Cristina Teixeira Marinho, licenciada em História, variante de Arqueologia.

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