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Festas e Tradições do Natal, de Lisboa ao Barroso. (Manuel Ferreira da Silva).

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 8 de dez. de 2020
  • 7 min de leitura

Anunciação, Natividade e Adoração dos Magos. Esculturas de Nicolau de Chanterene (1517). Porta axial, virada a poente, do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa.






Publicado na revista Sítios e Memórias, edição n.º 2, de Novembro de 1994.

Texto: Manuel Ferreira da Silva (Instituto Rainha Dona Leonor).

Fotografias: Arquivo.


De habituados como estamos a uma inflação de festas e de romarias no tempo de Verão, quase passam despercebidas as que acontecem durante os dias frios do Inverno ou noutras estações do ano.

Temos presente, por exemplo, a que é considerada a primeira romaria do ano: Santo Amaro, com dois dias de feira e uma romaria, a poucos quilómetros de Guimarães, nos princípios de Janeiro.

Como, em Janeiro ainda, a festança de S. Sebastião, em Terras do Barroso, com a tradicional Mesinha de S. Sebastião, que faz lembrar históricos ágapes dos primeiros cristãos, em sinal de amor e caridade fraterna pelos aniversários dos mártires e memórias de santos. É todo um cenário que vale pelo melhor documento de etnografia e folclore e que constitui um originalíssimo testemunho de confraternização religiosa, como acontece nos bodos do Espírito Santo.

O que faz lembrar também a tradicionalíssima usança da Santa Casa da Misericórdia de Florença. donde parece ter podido vir a inspiração para as nossas Misericórdias, com os tão festejados panelini ou pãezinhos de S. Sebastião.

Mas iguais acontecimentos podem registar-se noutras localidades.

Noutros tempos, de transportes difíceis e de caminhos apertados, o próprio percurso já era festa, feira e romaria, pois, desde que se saía de casa para chegar ao santuário, já se ia aproveitando o tempo. Hoje, tudo é pressa. Pelo caminho. não se perde tempo. Mas na feira é que se ajustam contas entre duas fumaças do rijo e duas tigelas do verde. Contas que diziam respeito à compra e venda de bois, pois a partir dali é que se marcavam os preços do ano, e contas que tinham a ver, de um modo especial, com questões de amor e ciúme.

Tem cada romaria a sua história, como tem cada feira a sua crónica. E todas elas, ao longo do ano, têm muito a ver com o calendário do tempo e com o calendário da liturgia. Não costuma o povo versejar com base no ritmo das festas, a marcar o ritmo das suas actividades de labor rural?

«21 de Dezembro:

Neste dia, prende o porco pelo pé;

Se ele disser: 'Que é? que é?'

Diz-lhe que tempo é.

Se ele disser: 'Que tal? que tal?'

Guarda-o para o Natal.»


E o ritmo do versejo batia certo com o ritmo do calendário:

«Em Janeiro

sobe ao outeiro:

se vires verdejar,

põe-te a chorar;

se vires negrejar,

põe-te a cantar.»


Com o Natal por pólo central

Como já ficou dito, grande parte das romarias e festas têm muito a ver com o calendário do tempo e com o calendário da liturgia.

Outro exemplo é o S. Martinho que, tendo sido um paradigma da compaixão e da caridade, repartindo com um pobre o seu manto de cavaleiro, nada tinha a ver com as festanças do vinho novo nem das castanhas assadas. Mas reportou-se a tradição em tomá-lo como patrono de toda uma atmosfera festiva dos acontecimentos de natureza agrária ou campestre que se desenrolam por ocasião da sua festa litúrgica.

Veja-se, sobretudo, o caso do Natal que, começando por ser uma forma de baptismo cristão, conferindo um cariz religioso a uma festa culto do Sol, nas andanças do Solstício de Inverno. a celebração do nascimento de Cristo foi-se envolvendo, ao longo dos tempos, de costumes e de tradições festivas que, no seu verdadeiro cariz, quase nada já têm a ver com o que se deve chamar a teologia do Natal.


Os presentes do Menino Jesus aos Pequenos Alsacianos.

Desenho de Gustavo Doré (1832-1883).






































As fogueiras na queimada do cepo monumental que arde nos adros das igrejas e nas plataformas das ermidas e capelas; as luminárias de que se enfeitam as árvores e as casas, as ruas e as salas, onde se serve, na intimidade do aconchego do lar, a consoada, são apenas o que resta ainda, adaptado pelo cristianismo, das famosas celebrações romanas do Sol Invicto, designado nas legendas latinas por Dies Natalis Solis Invict, ou Dia do Nascimento do Sol Invencível, registando-se assim, nas festas do solstício do Verão, as fogueiras joaninas.

Com o enfraquecimento do paganismo, no seu domínio imperialista do romanismo, o que ficou a prevalecer foi precisamente a celebração do impropriamente dito nascimento de Deus, criador do mesmo Sol, sobrepondo-se a toda uma teogonia pagã dos romanos, tão aparentada com os rituais egípcios em louvor de Osíris, Isis e Hórus, uma verdadeira trindade plena de simbolismo mítico; o que ficou a prevalecer foi a teologia da manifestação de Deus, Epifania, que no Oriente se manteria em Janeiro e no Ocidente se calendarizaria em Dezembro.

O mais antigo presépio que se conhece, datado de 343, segundo o arqueólogo de Rossi, num túmulo do tempo de Constantino Magno.










Para celebrar e celebrizar de uma forma plástica tão alto mistério como foi o nascimento de Cristo «sol verdadeiro que ilumina todo o homem que vem a este mundo», como se diz no bíblico Evangelho joanino, teve S. Francisco de Assis, um dia, a inspiração de promover em representação viva a cena do que poderia ter sido o primeiro presépio.

Cumprida que tinha sido a sua peregrinação aos lugares santos, viria de lá tão emocionado com o ter pisado terras de Cristo, que poeticamente deu vida à ideia de, no convento de Greccio, em Rieti, na Itália, com o patrocínio do seu rico e fidalgo amigo João de Velita, fazer celebrar uma missa à meia-noite, em 1223, sobre uma manjedoira, onde colocou, vivo e real, o menino acabado de nascer, dos caseiros de Velita.

E de tal modo esta cena impressionaria a todos, sobretudo pela homilia que o próprio «Poverello» fez, evocando o Presépio de Belém, que o cronista da Ordem, Tomás de Celano, o descreveu em Vita Prima, em 1229, e, a partir daí, pela pedagogia missionária dos frades franciscanos, se espalharia por todo o mundo o culto do presépio. Mas não se colhe daí razão para se esquecer que a representação plástica do que poderia ter sido o presépio betlemita já constava de baixos relevos romanos do tempo de Constantino, com data de 343.

Mas havia de ser a partir da representação cénica de Greccio que se haveria de divulgar, pelos mais diversos caminhos e processos de arte, os mil modos de representar o presépio, desde os iluminuristas do séc. VIII, aos primitivos do séc. XVI, até aos barristas do séc. XVIII, e seus sequazes, onde pontificariam os Machados de Castro e as Rosas Ramalho, cada qual no seu tempo e em seu estilo.


Uma constelação natalícia de festas

Mas deixemos o Natal, ainda ao som das violas e ferrinhos que acompanham as Janeiras e Reisadas, levando de porta em porta os pregoeiros da festa a anunciar alegrias e a pedir alvíssaras, como quem toma a seu cuidado envolver em ritual festivo a tradição cristã de confraternizar, pedindo-se a quem pode para se dar depois a quem precisa, marca feliz de uma forma de sociologia da partilha que tem a sua cátedra perfeita no Presépio onde nasceu Aquele que disse: «Amai-vos uns aos outros.» E ainda: «Tudo o que fizerdes ao mais humilde de entre vós é a Mim que o fazeis.»

Deixemos o Natal, mas não ainda sem referir que até os mortos dele beneficiam e partilham, segundo as mais piedosas usanças populares, celebradas nesta ingénua, mas expressiva, cantiga:


“Nesta noite ninguém cuide

Encontrar-se à mesa sós.

Porque os que amamos e já foram

Vêm sentar-se junto a nós.»

Por essa razão ainda, no Alto Minho, para a ceia da consoada, se põe mais um talher na mesa destinado a lembrar que a última pessoa falecida família é carinhosa e saudosamente lembrada.

Ou ainda o facto de não se levantar a mesa da ceia da consoada, como em Terras do Barroso, Guimarães e Rio Tinto, «para que os mortos ou alminhas, que vêm sempre a horas mortas, venham comer das migalhas que restam da ceia dos vivos».

Mas abandonemos o Natal, como vínhamos dizendo; todavia, não ainda sem guardarmos do cepo que ardeu no adro «alguns carvões e bocados de escapos» para se porem a arder em casa, em noites de trovoada, pelo ano adiante. Ou então ainda uma pinha mansa que se debulhou ao lume na noite de Natal, para se lhe comerem os pinhões, como acontece no Minho, a qual terá o mesmo mágico dos «bocados de escapos» do cepo natalício, quando o céu trovejar.

E como podemos deixar ainda o Natal sem referir os petiscos tradicionais, desde as filhoses às sopas de preceito, desde o bacalhau ao peru, que por sua vez já é uma infiltração comercialista, ao porco e seus inúmeros e bem gostosos derivados até à doçaria refinada e fecunda, como diz mestre Luís Chaves, «que dão ementa de estarrecer ascetas e dispépticos».

Como podemos deixar o Natal sem lembrar que todo o festivo aparato das comezainas da época é precisamente uma recordação das mais antigas festas agrárias pagãs, em que, conforme as datas da sua celebração, se consagravam as virtudes dos mais típicos produtos cada época, evocando e invocando com as mais engenhosas loas, as diversas divindades a cujo culto eram ofertadas?

Mas bem fecundo é o terna do Natal, para não esquecermos ainda a curiosa tradição da palha a cobrir o chão das cozinhas, tradição que é lembrada desde Vila do Conde ao Mindelo, desde a Maia à Dinamarca, até à Suécia, sugerindo não só que foi sobre a palha da manjedoura que o Menino foi deitado logo ao nascer, por não ter outra forma de berço, mas também porque sempre foi de palha a cama dos peregrinos e pegureiros nas suas andanças por terras de romarias e milagres e, ali, depois da ceia, se cantava. divertia e dormia toda a tribo familiar até ao cantar do galo, quando os sinos chamavam para a Missa do Natal, designada assim, porque era o galo o natural despertador, ficando mesmo conhecida na liturgia tradicional, muito com a marca do linguajar popular, com o nome de Missa do Galo, «ad galli cantum», corno se anotava nos velhos alfarrábios canónicos medievais.

Mas temos de ficar por aqui, que o Natal dá para muito.

Afinal, de romarias quase nada dissemos, o que ficará para próxima oportunidade, quando nos chamarem à festa As Cabeças de Santo, em Gaia, com S. Gonçalo em foco, Santo Amaro, S. Vicente, a Senhora das Candeias, ou da Luz, ou mesmo Candelária, como bem expressivamente é designada, com S. Brás logo a seguir, como diz a cantiga:

«D'aonde vens,

E pr'aonde vás?

Venho das Candeias,

E hei-de ir pró' S. Brás.»

Bibliografia

BAÇAL, Abade, Memórias. BRAGA, Alberto Vieira. Tradições e Usanças Populares. BRAGA, Theophilo, O Povo Português. CHAVES. Luís, Portugal Além, Notas Etnográficas, MCMXXXII. DIAS, Jaime Lopes, Etnografia da Beira. MARTINS, Mário, Peregrinações e Livros de Milagres na nossa Idade Média. Ed. Brotéria, 1957. OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, Rubi, D, Quixote, SANTO, Moisés Espírito, A Religião Popular Portuguesa, Assírio & Alvim. TEMPO LIVRE, revista mensal do Inatel. VASCONCELOS, J. Leite de, Ensaios Etnográficos.

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