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Como se fazem os Santos. O caso do Padre Miguel (Teresa Perdigão)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 4 de jun. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020


Publicado na revista Sítios e Memórias, ano II, n.º 5, Janeiro de 1998

Texto: Teresa Perdigão

Fotografia: Valter Vinagre

“Eu acredito no Padre Miguel. Estou convencido que ele é um santo. A cura..., como se sabe, é Deus quem cura sempre, mas eu acho que o Padre Miguel é um intermediário..., lamento profundamente a maneira como o trataram aqui e acolá." Quem fala assim é o secretário da Província Portuguesa Franciscana, o Padre Rema, grande amigo do Padre Miguel.

Outros, que constituem a grande multidão de fiéis deste padre, não se cansam de realçar as suas qualidades e propagandear o infindável número de milagres que lhe atribuem. "Não é um padre bruxo! É um padre santo, em corpo e alma" afiançam.

Em Maio, festejam-lhe o seu 85° aniversário.

Soito, a poucos quilómetros do Sabugal, enche-se de gentes de todo o País. Todos reconhecem que o Padre Miguel está muito debilitado, cansado e doente, mas não deixam de ir a Soito pedir-lhe que interceda por eles, junto de Deus. E o Padre Miguel não deixa de cumprir o que a certa altura da sua vida disse: "Pronto, agora já sou eu que não posso dizer que não a esta gente!" É um "homem de convento, um homem que ainda hoje enxota as pessoas, um homem humilde que sempre viveu em total desprendimento", como diz o seu sobrinho, teólogo e professor universitário. E conclui "isto está socialmente aceite... há um padre ou outro que não gostam disto. Há pessoas que dizem que só que o oiçam falar já é bom para elas".

Diz-se que, durante o Estado Novo, o Padre Miguel praticava exorcismos, à revelia da Igreja. Conta-se até que na romaria de Nossa Senhora da Póvoa, quando uma mulher começou a entrar em transe, o bispo teve de solicitar a ajuda dos presentes, ao que acorreu, com sucesso, o Padre Miguel, exorcizando.

Diz-se que uma "mulher de virtude", residente em Aveiro, ao ser procurada por alguém de Meimão para lhe resolver os seus problemas e tormentas, lhe respondeu da seguinte maneira: "Porque procuras tão longe os dons que podes encontrar no padre da tua terra?"

Diz o seu sobrinho que uns médicos espanhóis traziam uma criança doente e sem grandes esperanças de vida, quando, inesperadamente, o taxista que os conduzia os levou para casa deste pároco. Graças a ele, confirmaram os médicos, a criança saiu de sua casa já curada. A prova ali está na capela da casa de Soito — um enorme Cristo crucificado, oferecido pelos pais da criança. Para o seu sobrinho, Dr. Artur, o Padre Miguel seguiu um certo "filão hereditário", porque já o seu avô curava os animais e já o seu pai (irmão do padre Miguel) era uma "espécie de veterinário" naquela zona. " O meu pai morre em 72 e em 73/74 é que começa isto à volta do meu tio."

Meimão, onde o Padre Miguel exercia as funções de pároco, deixou de ser a pacata e isolada aldeia do interior, para se tornar, a pouco e pouco, num concorrido centro de peregrinação.

Aos domingos, no final dos anos 70, contavam-se 40 a 50 camionetas naquela exígua aldeia. O Padre Miguel deixou de ser um simples pároco para se tornar no santo procurado por gentes de todo o lado.

Esta afluência começou a incomodar paroquianos e autoridades religiosas. Os primeiros viam o seu pároco exceder-se em atendimentos a estranhos e a sua terra a ser invadida por excursões, peregrinações, táxis, camionetas e carros particulares que enchiam as ruas da aldeia. Por outro lado, achavam que as suas actividades como pároco iam sendo desprezadas, o que não lhes agradava nada. A missa dominical já não era um encontro de paroquianos entre si, com o seu pároco e com Deus, mas uma enchente de gente de fora que não deixava espaço na igreja para os da terra. Chegou a ser proposto que se fizesse uma missa vedada aos de fora.

No entanto e apesar do Padre Miguel continuar a viver pobremente, como sempre tinha feito, sendo um homem querido pela grande maioria das pessoas, o bispo da Guarda entendeu que as coisas não podiam continuar assim. O Padre Miguel contrapunha, afirmando que ele nada fazia que pudesse ir contra a lei de Deus e que tudo aquilo era construção dos que dele gostavam. Porém, nada havia a fazer. O bispo convidou-o a fazer umas férias e aproveitou a oportunidade para o substituir na paróquia.

Hoje, o Padre Miguel vive na sua terra-natal que é o Soito. Já não tem paróquia, mas possui um grande número de amigos, (como se intitulam) que o visitam, que lhe pedem conselhos e preces junto de Deus, a quem acreditam que ele chega mais facilmente.

Já não tem a genica e a espontaneidade que os anos lhe foram retirando e a vida difícil lhe foi roubando, mas tem a paciência e talvez uma certa obrigação para, diariamente, receber quem o quer "cumprimentar", cumprindo um horário rígido de várias horas de atendimento voluntário.

Assim se foi construindo esta imagem de santo, à qual o Padre Miguel já não pode fugir. ■

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