O Fado, Canção de Portugal. A Severa (1820-1846). (Vera Mendes)
- Anibal Santos

- 24 de set. de 2020
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Atualizado: 26 de set. de 2020

O Fado. Pintura de José Malhoa (1910). A rapariga conhecida por Adelaide "da
Facada" e Amâncio "pintor", seu companheiro, no quadro e vida, foram fadistas da
Mouraria e moradores na Rua do Capelão.
Publicado na revista Sítios e Memórias, n.º 5, de janeiro de 1998
Autora: Vera Mendes
Fazendo parte da cultura popular portuguesa, o fado não é, todavia, bem conhecido nas suas origens e evoluções.
Vai-se ouvi-lo a um restaurante típico, mas não se sabe praticamente nada a respeito dele nem do que representa para a cidade de Lisboa e para a música ligeira portuguesa.
São várias as opiniões sobre as origens do fado. Querem uns, como Teófilo Braga, que ele seja de origem árabe, coisa deveras singular, dado que nas regiões do nosso território onde os árabes (melhor dito, os mouros) mais tempo Permaneceram - Alentejo e Algarve - o fado teve sempre fraca implantação, aliás praticamente nula nos meios rurais.
Querem outros, como Luís Moita, que o fado seja de origem brasileira e alegam que ele teve larga divulgação no Brasil enquanto ali permaneceu a corte portuguesa... Ora, quando Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil, só encontrou a rudimentar civilização ameríndia, pelo que a poesia e a música brasileiras são de origem portuguesa, se bem que a última influenciada pelos ritmos africanos. E o simples facto de o fado ter tido alguma expressão no Brasil no período em que lá permaneceu a corte de D. João Vl (1807-1821) indica que foi sob a acção de uma maior presença portuguesa que o fenómeno se verificou, acabando por perder significado naquelas paragens após a independência.
O Prof. Gonçalo Sampaio é de opinião que o fado terá surgido em Lisboa com a abolição da escravatura, difundido em Alfama pelos pretos libertados, os quais cantavam uma canção langorosa - que seria o fado. E acrescenta que o fado não passa de uma leve modificação, quase meramente rítmica, do canto do S. João, que os fadistas adulteraram ao prolongar muito naturalmente a primeira nota radical para dar à canção o expressivo do lamento pela fatalidade do seu destino.
A opinião que parece mais razoável é a do musicólogo inglês Rodney Gallop: "Pela minha parte, não posso considerar o fado senão como síntese , estilizada por séculos de lenta evolução, de todas as influências musicais que afectaram o povo de Lisboa. A tradição nacional é evidente, pelo parentesco já apontado com os cantares regionais, (...) não há nada, absolutamente nada, de exótico no que respeita à construção formal, linha melódica e base harmónica do fado, cujas afinidades vão todas para a música da Europa Central. A forma estritamente geométrica do fado, talhado simetricamente em frases de quatro versos, liga-o sem possibilidade de dúvida à arte musical da França, Alemanha e Itália. A sua cadência bastante banal e pobre e os tons maior e menor nos quais está invariavelmente construído denunciam a segunda metade do século XVlll, responsável por tais características." (1)
As origens remotas do fado terão pois de procurar-se na música e na poesia europeias, mais concretamente nas provençais que, com os nossos reis da dinastia de Borgonha, foram introduzidas e divulgadas em Portugal através dos trovadores, jograis e menestréis, os primeiros dos quais vieram com o Conde D. Henrique; e, em particular, no plang, canção elegíaca, nas suas formas cantigas de amigo (Fado de Lisboa) e cantigas de amor (Fado de Coimbra), bem como nos contenses ou tourneyment (desgarradas, canto a atirar).
Numa perspectiva menos longínqua, houve quem relacionasse o fado com o lundum, dança brasileira de origem africana, espécie de misto do fandango e da fofa, com a aproximação dos corpos a chocar os nossos pacatos costumes europeus.
Confrontando o ritmo da frase melódica do lundum com o do fado, uma radical comum se nos depara.
Efectivamente, o inciso ritmo-melódico é para ambos uma série de sete notas (correspondentes ao verso da redondilha maior) cujo discurso é quase semelhante.
Sendo assim, a relacionação do fado com o lundum poderá ter a ver com as respectivas expressões coreográficas, que no fado batido e no lundum dançados por gente de baixo estrato social reflectiam influências das danças eróticas negras.
Poderemos pois considerar o fado, na sua essência, como uma simbiose de várias danças e canções de carácter lascivo, produto de uma mescla de raças que, a partir da colonização, se encontram pacificamente diante umas das outras.
Acusou-se o fado de ser uma canção triste e dolente, que amolece o carácter – uma canção de vencidos, assim a classificou Luís Moita. No contexto nacional em que surgiu, o fado não podia ser nunca uma canção alegre. Senão, vejamos: as invasões francesas de 1807, 1809 e sobretudo a de 1810 deixaram o País arrasado; a revolução constitucional de 1820; a independência do Brasil em 1822; o regresso de D. Miguel do exílio em 1828 e os quatro anos de lutas liberais; o setembrismo, o domínio cabralista e, por fim, a revolução da Maria da Fonte haviam criado um clima de instabilidade, de insegurança, de degradação tal, que a alegria de viver não podia reinar entre a população.
O fado foi assim para as classes mais desfavorecidas da capital uma válvula de escape das suas carências e angústias, um lamento magoado, por vezes doentio.
No início do século XlX, o grande entreposto marítimo de Lisboa era o Cais de Santarém, ali aos pés de Alfama, onde atracavam os veleiros provenientes do Brasil, da África e do Oriente, e terá sido muito provavelmente a marinhagem que se espraiava por aquele bairro que, reflectindo o saudosismo curtido nas longas viagens, imprimiu à canção o acento melancólico que constituiu uma das suas características dominantes.
"O fado nasceu um dia / Quando mal bulia / E o céu o mar prolongava / Na amurada dum veleiro / No peito de um marinheiro / Que estando triste cantava” - diz um poema de José Régio, cantado por Amália.

Tipos de Lisboa. Gravura de Rafael Bordalo Pinheiro
Por ser cantado nas tabernas e nos lupanares por indivíduos quase analfabetos e, por vezes, de maus costumes é que se engendrou um tipo social que marcou época: o fadista, sujeito chibante de traje característico, hábil no manejo da navalha, que viria também a ser conhecido por faia. Cantava o fado acompanhando-se à guitarra e tinha geralmente por amante uma prostituta que o sustentava, protagonizando um e outro frequentes cenas canalhas. Aliás, as próprias prostitutas, as "moças" como então eram designadas, passaram a cantar e algumas delas a dedilhar o fado, destacando-se entre todas a Maria Severa, que obteve popularidade no segundo quartel do século XIX.
Com o advento do fontismo e o progresso que a regeneração trouxe ao País (1851-1868), o fadista brigão e chulo foi rareando e o fado passou a ser cantado por gente honesta e trabalhadora. Homens das mais diversas profissões apropriaram-se do fado e, como cantadores, poetas e instrumentistas, fizeram-no evoluir, sem no entanto lhe retirar o sabor castiço que o distingue das demais canções. Por sua vez, as mulheres já não prostitutas, inclusive actrizes, contribuíram com as suas vozes e sentimentalidade para dar ao fado a projecção que o havia de levar a todo o País e ao estrangeiro.
Já totalmente divulgado e aceite pelas diferentes classes sociais, o fado vê as luzes da ribalta cerca de 1890. A referência mais antiga que encontramos diz-nos que numa revista de Sousa Bastos, Sal e Pimenta, a actriz Carmen Cardoso cantou o fado Carro do Jacinto (1894), com música de Freitas Gazul.
A divulgação do Fado a partir do início do século tornou-se tão intensa, que se torna impossível elaborar uma lista completa de compositores, editores e intérpretes.
Eis alguns nomes dos que se tornaram mais conhecidos: Reinaldo Varela, Hilário, Júlio Silva, Raul Portela, Raul Ferrão e tantos outros compõem fados que alcançaram grande popularidade, como o Fado do 31, que foi curiosa sátira política.
Aparecem então as primeiras vedetas do palco, que sucedem na popularidade às lendárias Severa e Cesária, nas vozes das actrizes Carmen Cardoso, Ângela Pinto, Palmira Bastos, Adelina Fernandes; os actores Queirós, Taborda, Roldão, Amarante e os cantadores José do Bacalhau, Alfredo N/larceneiro, Filipe Pinto, Carlos Ramos. Modernamente, o fado atinge nova feição nos estilos de Amália Rodrigues e Hermínia Silva.
No ponto de vista instrumental, salienta-se a importância da guitarra que, desgarrando-se da função primária de acompanhante, vem a atingir expressivo dialogar com o canto.
Pode dizer-se que o fado, como certas pessoas, teve maus princípios, mas se regenerou, mercê da modificação das condições de vida e dos costumes, apagando por completo o seu passado de desgraças, sem no entanto ter perdido o carácter sentimental que é aliás próprio do nosso temperamento. Ele é certamente a mais expressiva manifestação poético-musical da maneira de ser portuguesa e um valor indiscutível da cultura popular, em particular de Lisboa.
Mouraria, Berço do Fado


Aspectos da antiga Mouraria
Diz-se que foi na velha Mouraria que um dia nasceu o Fado.
Cantado nas tabernas desse bairro popular, como nos jantares de alguns nomes ilustres da nobreza, o fado ganhou o seu cariz poético-lendário com o mito da Severa, sem dúvida, a mais famosa das intérpretes do fado e que já em vida se julgava no direito de proclamar: "A Mouraria sou eu! O fado sou eu!"
E difícil adivinhar essa Mouraria que a Severa conheceu, de cujos ecos as crónicas deixaram alguns registos: "chinela no pé, cigarro lambido, peúgo riscado, chapéu às três pancadas, navalha no bolso e a guitarra como banda sonora. Espera e touradas, hortas ao domingo e pancadaria de vez em quando. Os nobres demandavam tabernas e as meretrizes eram recebidas nos salões". (2)
Quarenta anos passados sobre a destruição da tradicional Mouraria, pouco existe já hoje. O bairro conserva, porém, a sua vida própria, a sua autonomia e pitoresco natural, o traçado labiríntico das suas ruas e vielas, a singeleza dos seus pátios e vilas, o colorido das roupas nos estendais, as suas tradições fadistas que nos recordam a Severa e tantos outros fadistas que pelas vielas do Capelão fizeram ouvir os seus cantares.
O Bairro da Mouraria
(Fado da Severa)
O bairro da Mouraria
Onde viveu a Severa;
Pela tua casaria
Parece que ainda impera
Uma doce nostalgia...
És a patria dos fadistas,
Dos rouxinões e ciganas;
Nos teus becos fatalistas
lnda ha chõros de guitarras
Que assistiram às conquistas!
O Conde de Vimioso,
Fidalgo de nobre raça;
Foi um cantador famoso,
Viveu na tua desgraça
O'bairro misterioso...
Tens nas ruas apertadas
Ainda viva a saudade,
Dessas moiras encantadas,
Cheias de fatalidade,
Ao choro das guitarradas!
Se criaste rufiões,
E pobres mulher's perdidas;
Também criaste as canções,
Suaves e doloridas
Que alentam os corações!
O'bairro escuro e tristonho
Da Mouraria do fado;
Ai! quantas vezes me ponho
A pensar que és do passado,
A poeira azul d'um sonho!
Severa. A Fadista-símbolo

"Chorai, fadistas, chorai / Que uma fadista morreu; / Fadistas como a Severa/ Nunca o fado conheceu." A quadra – com estes dizeres ou outros semelhantes, já que as versões abundam - resume, na sua singeleza, todo o mito que começou a ser criado há 150 anos, na verdade, em 30 de Novembro de 1846, morria a mulher que se tornou no próprio símbolo do fado, da canção nostálgica, nascida talvez em parte incerta, mas que das vielas lisboeta partiu à conquista do País e de algum mundo.
Maria Severa tornou-se, neste século e meio, numa lenda, evocada sempre como a genuína representante da má sina, da boémia, da beleza física, da vida canalha e da capacidade de transmitir tudo isto nuns versos tristes, num dobre choroso da guitarra e numa voz que os seus contemporâneos consideravam sem rival.
As incertezas sobre a sua vida e a falta de um retrato autêntico, para já não falar da óbvia inexistência de um registo da sua voz, ajudaram muito à criação e crescimento do mito.
Apesar de a lenda a ter para sempre ligado às ruas da Mouraria, Maria Severa Onofriana viu a luz pela primeira vez a 26 de Julho de 1820, numa das barracas existentes na freguesia dos Anjos.
Depois disso – e já sem tantas certezas - teve grande número de moradas, dependendo as mudanças primeiro da vida agitada de sua mãe e depois dos amantes que ela própria foi tendo.
Assim, há notícia de a futura fadista ter vivido em criança na Graça. Parece certo também que morou com a mãe na Rua da Madragoa (hoje, Rua de Vicente Borga), onde a progenitora tinha uma taberna. Foi aí que primeiro se ouviram as desgarradas entre a Severa e o então célebre Manuel Botas, boémio e pegador de touros.
Mais tarde, a jovem fadista terá morado no Bairro Alto, mais precisamente na Travessa do Poço da Cidade. Aí se terá dado o encontro com o escritor Luís Augusto Palmeirim que a visitou e lhe chamou depois "grande notabilidade do Bairro Alto".
A morada célebre foi, porém, a da Mouraria, na Rua do Capelão, actual número 36. Aí permaneceu a fadista os anos mais agitados da sua curta vida e aí viveu a sua época de maior celebridade.


E na estreita viela se inspirou Júlio Dantas ao escrever os versos do fado que Frederico de Freitas musicou; "Ó Rua do Capelão / juncada de rosmaninho..."
Daí partiu para a lenda, muito por culpa dos amores que viveu com um fidalgo, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, 5.º Marquês de Valença, 13.º Conde de Vimioso, Par do Reino, ministro honorário de Estado e o Primeiro cavaleiro tauromáquico das arenas portuguesas da época.
Os escassos dois anos que terá durado a ligação chegaram, porém, para construir o mito que perdura e que o teatro e o cinema ajudaram a perpetuar: os amores do conde e da fadista ficaram para sempre na história de Lisboa.
É, até agora, impossível fazer cronologia rigorosa de uma mulher que saltitava de morada, de bairro, de amante, de companhias - tudo isto numa época que ninguém iria adivinhar que a biografia de uma simples rapariga dona de boa voz e de mau comportamento seria ponto de interesse mais de um século depois depois da sua morte.


Em cima: capa do livro Severa, de Júlio Sousa e Costa, 2.ª edição, Lisboa, Livraria Bertrand, s/d
Maria Severa Onofriana, figura real de fadista e boémia, foi decididamente absorvida pelo mito. A tal ponto isssosucedeu, que hoje se torna tarefa dificílima traçar a sua biografia sem tropeçar a cada passo naquilo que, inspirados na sua figura, uns escreveram e outros fantasiaram.
Júlio Dantas transformou-a em personalidade principal de romance e com isso contribuiu para a imortalizar e também para baralhar alguns dados, já que muita gente passou a ver muito mais a heroína da obra literária do que a personagem autêntica. O êxito do romance levou Júlio Dantas a passá-lo para peça teatral, que foi à cena no D. Amélia (hoje São Luiz) em 1901. Depois de parceria
com André Brun, transformou a peça em opereta, com música de Filipe Duarte.
Por sua vez, Leitão de Barros (em 1931) transpôs a vida romanceada da Severa para o cinema. A música do filme (o primeiro sonoro em Portugal) foi composta por Frederico de Freitas.
Outros, com relevo para os autores de letras de fados, fizeram-na intérprete de mil episódios, algumas vezes sem olhar sequer à necessária correspondência entre datas e factos.
Muitas actrizes de nomeada foram assim "Severas" no palco. E quando, mais recentemente (em 1955), a Severa foi reposta em cena no Teatro Monumental, com Amália Rodrigues no papel da protagonista, ainda o público encontrou nela motivos de agrado.
Em 30 de Novembro de 1846, calava-se a voz que nenhum dos vivos alguma vez ouviu, mas que ninguém põe em dúvida ter sido a melhor de sempre no fado.
Embrulhada num simples lençol, baixou à vala. Ela própria tinha previsto esse destino numa das suas quadras: "Quando eu morrer, raparigas / Não tenham pesar algum / E ao som das vossas cantigas / lancem-me à vala comum."
Desde então, jamais os autores de letras de fados deixaram de celebrar a memória da incontestada rainha deste género musical.
Num beco da Mouraria
Onde a alegria
Do sol não vem,
Morreu Maria Severa,
Sabem quem era?
Talvez ninguém!
NOTAS:
(1) Gallop, Rodney, Cantares do Povo Português, Lisboa, 1960.
(2) Dias, Marina Tavares, Lisboa Desaparecida, Lisboa, Quimera Editores, 1994, vol. lV.
Bibliografia
BRAGA, TeóÍilo, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições, Lisboa,
1885, vol. 1 .
CARVALHO (Tinop), Pinto de, História do Fado, Lisboa, 1903.
DIAS, Marina Tavares, Lisboa Desaparecida,vol. lV, Lisboa, Quimera Editores, 1994.
MOITA, Luís, O Fado/Canção de Vencidos, Lisboa, 1936.
SUCENA, Eduardo, Lisboa, O Fado e os Fadistas, Lisboa, Vega, 1992.



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