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Os “Vai de Roda”: a fusão dos sons com a memória (Ary Silva)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 1 de jul. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020

Publicado na revista Sítios e Memórias, edição n.º 3, de Julho de 1997

Texto: Ary Silva


0s Vai de Roda têm vindo a marcar novas estéticas na música popular portuguesa. Também por isso, Tentúgal, o porta-voz do grupo, não coloca restrições em afirmar que "cada disco dos Vai de Roda é por nós considerado como uma obra de arte". Nesta entrevista, aquele que é um dos nossos grandes mestres da sanfona mostra que é um realista que luta pela preservação da nossa identidade. Sempre com a inovação no horizonte. "Tal como dizia António Gedeão, o sonho comanda a vida. Parece-me que a música popular é sempre um sonho positivo a ter em conta, visto que, com ela, se pode fazer algo pelo País, algo que ajuda a preservar a nossa identidade", afirma Tentúgal, que acredita que a ligação dos Vai de Roda à música popular portuguesa se manifesta e ramifica até à Galiza, região com que o grupo se identifica cultural, musical e humanamente. "Nós temos encontrado em gentes, e sobretudo em músicos, da Galiza, um grande apego às suas raízes, um grande gostar da região de que fazem parte. Esse sangue ajuda a alimentar-nos, visto que o que recebemos em Portugal é muito pouco. Essa sensibilidade é irmanada por nós e não é por acaso que partilhamos mais com eles do que com gente que está em Coimbra ou em Lisboa a fazer aparentemente música do mesmo lado que nós", afirma o sanfonista que, por vezes, parece pessimista em relação ao estado da nossa cultura. Um pessimismo que se sente quando fala da dificuldade de projectos musicais consistentes e de grande valor, como o que é preconizado pelos Vai de Roda, que não têm editora.

“Distanciando-me do facto de ser elemento dos Vai de Roda e vendo a questão mais pelo meu lado de professor de música e de cidadão português, julgo que isso tem a ver com a mentalidade portuguesa que, ao nível economicista, nem sequer chega a ser capitalista, sendo antes merceeira. Acontece que o produto que é tratado com muito carinho e amor e que tem um conteúdo qualitativo que, tal como todos os conteúdos qualitativos, ao nível da cultura deste país são, muito pouco acarinhados. Vivemos crises de cultura do ponto de vista daquilo que é verdadeiramente nosso, vivemos na chamada música pimba, numa cultura pimba e degradante."

Pelas ondas de um novo mar

Polas Ondas, o terceiro registo dos Vai de Roda, faz-nos navegar através de uma música que, sendo de raiz portuguesa, remete-nos para as paisagens musicais galegas mais sublimes, para a pronúncia do Norte, onde os sons se fundem com a memória. O disco começa com Folias Novas, um poema de Rosália de Castro que nos transporta pelas ruas bordadas de granito do Porto, numa caminhada por entre o nevoeiro até à Foz, onde se comunga da energia do mar. mas este é outro mar. É o mar do simbolismo iniciático, da fusão das paisagens, dos sons e das memórias. É o mar onde se cruza a poesia de Álvaro de Campos com a fanfarra de António Silva Leite, com gaivotas voando e búzios a soprar os sons do anoitecer entre as brumas da memória tocadas por percussões distantes, violino, violoncelos, gaita-de-foles e sanfonas que, por vezes, parecem endiabradas no mar revolto. Uma ode à imaginação, um hino à nossa história.

Polas Ondas estabelece novos parâmetros de aferição para a música portuguesa. "Cada disco dos Vai de Roda é por nós considerado como uma obra de arte. É por isso que os críticos têm dito que todos os nossos trabalhos têm sido um ponto de referência para esta área da música portuguesa. Estou em crer que a nossa postura, na sua globalidade, tem mostrado uma forma de estar na vida e de estar na música que marca estéticas. Uma das marcas que nos distingue dos outros grupos é que, quase como uma pedra filosofal, temos a noção de que a música portuguesa não está apenas no campo, mas também em cancioneiros medievais, em cancioneiros renascentistas e em temas de autor."

Invulgar dinâmica musical

O tratamento que fazem das dinâmicas musicais é algo invulgar no contexto da música popular portuguesa. Com isso, o grupo pretende inovar, atingir novos horizontes. "Uma das coisas que me entristecem no tratamento da música portuguesa, a de raiz tradicional e popular, é o facto de ser demasiado linear, tudo muito plano, sem variações, pouco criativo. Os músicos dos Vai de Roda têm vindo a dar atenção a essa atitude, visto que na música não existe só ritmo, só timbres, só acordes. Toda a composição, toda a harmonia e toda a musicalidade vivem de um conjunto de vários factores, sendo um deles as dinâmicas, os crescendos, os decrescendos, as paragens, as pausas, os silêncios." Para além das dinâmicas, há também algumas extrapolações no vosso trabalho. Não acha que, em termos de feed-back do público, isso cria algumas restrições? "Os três discos dos Vai de Roda têm muitos elementos simbólicos e uma conceptualidade, quer ao nível do encadeamento dos temas quer ao nível do texto que acompanha os discos. Do ponto de vista simbólico, parece-me que a população das cidades está realmente mais distanciada, enquanto as da aldeia fazem passar a sua vida por festas, por lengalengas, por bailes, mantendo vivos elementos simbólicos mais brincalhões, mais eróticos, mais sérios ou menos sérios.

No campo ainda existe a relação com a terra, a relação vertical, de terra/céu, céu/terra. Do ponto de vista do tratamento plástico de cada disco e de cada tema em si, talvez pela humildade e pela sensibilidade das gentes que são as arcas onde este tesouro, que é a musica tradicional, ainda está guardada, existe um prazer muito grande em ver a sua música tratada por outros. Eles vêem isso, mesmo que não gostem, com muita honra. Nas nossas cidades, há mais pruridos, há uma grande falta de sensibilidade."

Tradição galaico-portuguesa

No entanto, mais do que fazer música tradicional, os Vai de Roda optam por trilhar um caminho que faz uma leitura de tradição galaico-portuguesa. "Desde 1979 que dizemos que o nosso âmbito geográfico é o Norte. Sendo assim, estamos atentos à formação da nacionalidade, à identidade portuguesa, ao galaxismo, à poesia galaico-portuguesa, etc. Por outro lado, isto pode soar a dejá vu, a música é universal e não é por falarmos mais em português ou mais em mirandês ou galego que não nos vamos entender. Recordo-me que um dia, num bar irlandês, eu e um amigo músico começámos a tocar e toda a gente que estava no bar se deixou navegar naquela música oriunda de um país tão distante e, no entanto, tão próximo musicalmente . A música não tem fronteiras nem barreiras e nem o facto de ser cantada noutra língua impede que seja sentida profundamente . A música é universal e mesmo que os Vai de Roda lutem pela preservação da nossa identidade, não deixarão de buscar novos horizontes para a música que produzem”.


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