A Feira Popular de Palhavã (Manuel Paquete)
- Anibal Santos

- 20 de set. de 2020
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Publicado na revista Avenidas Novas, n.º 2, de setembro de 2015
Autor: Manuel Paquete

Circo na Feira Popular, no seu primeiro ano de funcionamento no parque José Maria Eugénio. Fotografia de Judah Benoliel. 1943. Arquivo Municipal de Lisboa / Arquivo Fotográfico.
No número anterior abordámos a memória do Velódromo de Palhavã, situado no Parque José Maria Eugénio. Neste parque, também conhecido por Parque de Santa Gertrudes, também existiu, entre os anos de 1911 e 1918, o Hipódromo de Palhavã, outro recinto desportivo e frequentado pela fina sociedade lisboeta. Noutra ocasião, oportuna, poderemos voltar as antigas memórias da antiga quinta de recreio, setecentista, aqui queremos apenas revisitar outra instituição histórica que aqui teve lugar e que se inscreveu indelevelmente nas páginas da olisipografia, sobretudo nos capítulos dedicados aos tempos de lazer: a primeira Feira Popular de Lisboa.
A ideia partiu de João Pereira da Rosa, director do jornal O Século, como forma de angariar fundos para a Colónia Balnear Infantil “O Século”, por si criada em 1927, em S. Pedro do Estoril, destinada às crianças pobres da capital. O Parque José Maria Eugénio de Almeida foi graciosamente cedido pelo proprietário, Conde de Vilalva.
A feira foi inaugurada no dia 10 de junho de 1943. A entrada no recinto custava 1 escudo e o êxito excedeu todas as expectativas. Transposto o portão principal, o visitante deparava-se com grandes fotomontagens da vida das crianças na Colónia Balnear Infantil e uma maqueta das futuras instalações da colónia, cuja construção seria financiada com os proventos da feira.

Feira Popular de Lisboa no antigo Parque José Maria Eugénio - Colónia
Balnear Infantil do Século. Fotografia de Eduardo Portugal.1956.
Arquivo Municipal de Lisboa / Arquivo Fotográfico.
Depois, sucediam-se as surpresas e as diversões: a barraca dos tiros, o carrossel dos automóveis elétricos, o comboio-fantasma, a serra-mágica, o Novo Circo, os robertos, a mulher-transparente. Logo no primeiro ano, “ficaram célebres a ‘cadeira eléctrica’, a mulher-peixe, o túnel rolante e a eterna roda gigante”(1).
Outra atração popular foi a pequena praça de touros com vacas bravas, ali recriada. Isto, claro, para além dos indispensáveis “comes e bebes”. Os lisboetas, longe do sofrimento causado pela guerra além-Pirinéus e que entrava na fase de refluxo do expansionismo nazi, tinham ali um escape, nas noites de Verão, para as agruras do dia-a-dia.


Noite de swing. O Século Ilustrado,
n.º 346, de 19 de Agosto de 1944
A feira da Palhavã sucedeu às desaparecidas feiras lisboetas: as feiras de Belém, de Alcântara, de Santos, das Amoreiras, ou da feira de Agosto no Parque Eduardo VII. Porém, a Feira da Palhavã suplantou o caráter rústico daqueles antigos recintos de diversão e o exíguo Parque Mayer, aberto desde 1922, cujos teatros eram o principal foco de atração.
O planeamento da nova feira coube ao cineasta e cenógrafo Leitão de Barros, também membro da Comissão de Honra; o arquiteto Jorge Segurado colaborou na projeção de algumas construções; a iluminação foi da responsabilidade do engenheiro Carlos Santos. O tijolo e o estafe davam forma a ambientes arquiteturais e decorativos típicos: soavam ainda os ecos da Exposição do Mundo Português.
O olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, encarregado da reconstituição histórica da feira, resumia assim o espírito do certame: “A Feira de Lisboa, sem deixar de ser ‘popular’ passou a ser também um grande mostruário das forças económicas da capital, e um documentário de várias acções oficiais”. (2)

Em 4 de setembro de 1956, deu-se um facto marcante na história da feira: o recinto foi palco dos primeiros ensaios televisivos da RTP. Entretanto, a Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu o terreno do parque da Palhavã, onde veio a instalar-se. Entretanto, a Feira Popular, depois de uma passagem fraca e fugaz pelo Jardim da Estrela, acabaria por se instalar em Entrecampos, em 1961, onde brilhou durante três décadas…
(1) Maria João Martins, O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Grande Guerra, Lisboa, Veja, 1994, p.95.
(2) “A Feira de Lisboa”, Revista Municipal, n.º 41, Lisboa, CML, 1949, p. 28.



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