Feira de Agosto. Divertimentos e petiscos no Parque Eduardo VII (1908-1916)
- Anibal Santos

- 27 de ago. de 2020
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Publicado na revista Avenidas Novas, n.º 17, de Julho de 2019
Texto: Manuel Paquete (Licenciado em História)
Nos inícios do século XX, as feiras permaneciam como lugares de eleição dos lisboetas, nos seus tempos de ócio. Foi, contudo, uma época de grandes transformações urbanas que se repercutiram no recorte sócio-económico e cultural das feiras, sobretudo as urbanas. E das suas funções! Em 1885, num artigo sobre a feira de Belém, o articulista lamentava o facto de as feiras de Lisboa terem perdido completamente a sua primitiva feição de mercados anuais. As feiras haviam-se transformado em locais de “simples diversão popular”, com “todos os atractivos baratos, disseminados numa infinidade de divertimentos para o espírito e de bons petiscos para o estômago” (O Occidente, n.º 244, 1885).
Em 1908, mantendo-se até 1916, a Feira de Agosto, realizada no Parque Eduardo VII, de Agosto a Outubro, preencheu um novo modelo de feira como centro de diversões: um modelo que depois perdurou no Parque Mayer, a partir de 1922, e exponenciado na Feira Popular, na Palhavã, após 1943, depois em Entrecampos, de 1961 a 2003.
As antigas feiras do Lumiar, de Santo Amaro, dos Prazeres, das Amoreiras, de Belém, de Alcântara, de Santos, e do Campo Grande, com duração média de mês e meio cada, variadamente entre os meses de Maio e Outubro, sofreram mudanças de lugar até à sucessiva extinção, dada a inconformidade urbanística perante as disposições camarárias e as transformações da própria cidade. Permanece a Feira de Luz, em Setembro.

Legendas
Em cima:
Feira de Agosto. 1911-10-05. Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.
Ao lado:
Barraca das farturas premiada. 1911. Joshua Benoliel. Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
A Feira de Agosto aglomerou as diversões já conhecidas dos lisboetas, desde as simplesmente lúdicas, como os carrosséis e a montanha russa, os jogos de destreza, como o tiro ao alvo e as argolas, ou as de carácter mais espectacular e recreativo, como os teatros, os animatógrafos e as artes circenses, não faltando os comes e bebes, o fotógrafo à la minute e, novidade, um barbeiro, logo à entrada. Pretendeu-se um maior cuidado organizativo, quanto aos acessos e à circulação no recinto, e sobretudo a qualidade dos equipamentos, sobretudo a apresentação das barracas, sujeitas a um concurso de fachadas, por iniciativa dos comerciantes, em 1911, passando pela iluminação eléctrica.

Legendas
Em cima: Teatro Júlia Mendes. 1910-08. Joshua Benoliel. Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.
Pavilhão do Metropolitan Scenic Railway. 1910-08. Joshua Benoliel. Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Ao lado: Vista geral da Feira. Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
O aspecto feérico da feira, visível na pacata noite lisboeta, não deixava de ser um poderoso foco de atracção, porém reservado de facto aos que se podiam dar ao luxo de a frequentar.
Seria o caso da “sociedade elegante” que, conforme noticiava o circunspecto Diário Illustrado, em 8 de Agosto de 1908, passaria ali a reunir-se às quartas-feiras nos seus “rendez vous” de moda. Logo no primeiro ano teve lugar um festival organizado pelos feirantes a favor das crianças protegidas pelo jornal O Século. Os visitantes da feira tinham ao dispor os animatógrafos (Royal Cine-Palais, o Chantecler e o Petit Palais), os amantes do teatro tinham as bancadas do Chalet Avenida, que abriu com a revista “Salada de Alface”, onde primava a popular actriz Júlia Mendes; o Águia d’Ouro e o Chalet Trindade. Abundavam as barracas de comes e bebes, com os vários restaurantes, adegas e cervejarias. Destacava-se pelo formato insólito o restaurante “A Fragata”, que integrava mastros e vergas na decoração e copiava a corveta “Paciência”, que estava na sala do Risco do Arsenal da Marinha. Servia as “caldeiradas à marinheira”. Para os mais pequenos, e também graúdos, o algodão doce era uma novidade em 1909. Passaram pela feira as barracas de farturas do Júlio, do Manuel Jorge António e Filho e da “Filha do antigo fabricante” e, a partir de 1911, as barracas do “Cá está o Vilas” e a do Bernardino Antunes no ano seguinte.
Mas a feira de Agosto, apesar dos maiores cuidados estéticos, teve uma existência breve. A sua localização mostrou-se incompatível com a prevista renovação do Parque Eduardo VII.
Logo em 1914 a Câmara anunciava a intenção de não permitir a continuidade da feira naquele local, adiantando a hipótese da sua realização no Largo Dr. Afonso Pena, ao Campo Pequeno. Perante a posição camarária de mudar a feira, Associação de Classe dos Feirantes Lisbonenses procurou, de novo, em 1915, demover a comissão camarária sobre essa transferência da feira. Ter-se-à conseguido uma solução de compromisso com a instalação das barracas num terreno situado junto às ruas Castilho e Joaquim António de Aguiar (Sessão da CML de 28 de Junho de 1915).
Em 1916, a câmara pôs definitivamente de lado a volta da feira ao lugar original, dada a intenção de proceder ao ajardinamento daquela zona do parque. Por sua vez, na sessão camarária de Novembro desse ano, o júri nomeado para a classificação das barracas da feira decidiu não atribuir qualquer prémio aos feirantes, dada a “falta de estética”. A feira agonizava entre a falta de condições logísticas, as exigências do regulamento camarário e, certamente, também com a crise de carestia, sublinhada pela participação do país na Grande Guerra; não esquecendo também as turbulências adversas vividas pela República, a cujo nascimento a feira de Agosto assistira, com os acontecimentos na vizinha Rotunda, em 5 de Outubro de 1910.







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