Do Aviz ao Sheraton. Um quarteirão “hoteleiro”
- Anibal Santos

- 11 de set. de 2020
- 4 min de leitura
Publicado na revista Avenidas Novas, n.º 14, Setembro de 2018
Texto e fotografia: Manuel Paquete (o autor escreve segundo o anterior AO)

Hotel Avis. Posterior a 1930. Fotografia de Judah Benoliel (1890-1968). Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico.
O número de hotéis nas Avenidas Novas tem aumentado nos últimos anos. Uma concentração excessiva, segundo algumas vozes críticas, que se cruza nos seus efeitos com a inexistência, ou os preços proibitivos, de casas para arrendar e o decréscimo demográfico local.
Em meados do século passado o cenário era diferente, não apenas nas “avenidas”, mas em toda a cidade: mais do que a falta de alojamento hoteleiro, à escala de um país ainda pouco visitado, faltava, pelo menos, um hotel de grande luxo, digno da “capital do império” e que servisse o grande turismo internacional que começava a despontar. O próprio Salazar, se convenceu, ou foi convencido, dessa grave falha e tratou de convencer um grupo de capitalistas a se ocuparem da lacuna. Seria assim construído o Hotel Ritz, uma obra magistral saída do estirador de Pardal Monteiro, que contou com a colaboração de uma plêiade de outros artistas. A inauguração, em 1959, não contou com a presença do ditador, por ter deixado de gostar do arquitecto…
Mas essa é outra história, embora caiba na história da hotelaria nas Avenidas Novas, da qual nos ocupamos aqui apenas de um ou dois capítulos: os hotéis Aviz e Sheraton, bem distintos entre si, como tal marcadores de épocas diferentes na vida da cidade, em que nomeadamente a evolução turística (e, com o tempo, alguma democratização do sector) ditou distintos modelos de hotelaria.
O Hotel de Aviz, situado na Rua Latino Coelho n.º3, junto à Avenida Fontes Pereira de Melo, foi uma adaptação do palacete de José Joaquim da Silva Graça, proprietário do jornal O Século. O edifício, da autoria do arquitecto Ventura Terra, foi construído em 1906. A casa acabou por ser vendida, junto com o histórico jornal, por Silva Graça ao genro, Joseph Rugeroni, que decidiu o novo destino do palacete.
A adaptação a hotel coube ao arquitecto Vasco Regaleira, com a responsabilidade dos trabalhos de construção a cargo de Carlos Augusto Sá Carneiro. Ao antigo imóvel acrescentou-se um corpo lateral, virado a poente, onde foi gravado o símbolo do hotel: uma águia simbolizando o Mestre de Aviz. O próprio J. Rugeroni se encarregou da decoração. A inauguração teve lugar em 1933. Pelos 25 quartos, entre os quais suites, passaram muitas figuras célebres: Eva Péron, o general Eisenhower, Franco, a rainha Isabel II, a rainha D. Amélia, o rei Humberto de Itália, o escritor Somerset Maugham, Frank Sinatra, Maria Callas, Ava Gardner. Nos anos da II Guerra, o hotel foi um “ninho” da espionagem internacional. Mas o mais célebre e fiel inquilino foi Calouste Gulbenkian, que ali viveu desde 1942 até ao fim dos seus dias, em 1955, e que numa entrevista à revista norte-americana Life, em 1950, distinguiu o Aviz como um dos hotéis “mais sumptuosos” do mundo.
A cozinha foi certamente a grande excelência do Aviz, garantida pela orientação do chefe Manuel Ferreira, a que se seguiu João Ribeiro. Também ali trabalharam o maître de hotel italiano Rappeti e o chefe pasteleiro Joaquim Oliveira. A “bíblia” gastronómica do hotel era o Guide Culinaire, do grande mestre francês Auguste Escoffier. Mas o próprio Rugeroni empenhou-se nesse campo criativo, elaborando muitas das receitas usuais nas mesas do estabelecimento: um receituário publicado no livro Os Segredos do Aviz Hotel: Receitas com História, de Berenice Rugeroni Pessanha Cisneiros (2002).
Entretanto, impossibilitados de ampliar o hotel, o que já sucedera nas vésperas da Grande Exposição do Mundo Português (1940), a família proprietária, os filhos de Joseph Rugeroni (Anthony e Beatrice) decidiram-se pela venda do hotel e terrenos circundantes, o que só foi possível em Abril de 1961, segundo as exigências de Salazar, depois da abertura do novo Ritz. Por sua vez, o nome Aviz perpetuou-se no luxuoso restaurante, no Chiado, nas mãos daqueles familiares.

Em 5 de Setembro de 1972, conforme a reportagem publicada no Diário de Lisboa, a cidade contava com mais um hotel: o Sheraton, desenhado pelo arquitecto Fernando Silva, situado no lugar onde existiu o “velho e luxuoso Aviz”. O novo estabelecimento, pertencente a uma cadeia internacional de hotéis, entrou em funcionamento antes da inauguração. Com os seus 91 metros de altura, foi o mais alto edifício do país até 2000. Conta com 369 quartos, o que dá uma capacidade média de 740 pessoas, distribuídos pelos 28 pisos, onde se incluem as caves, com diversas lojas. Entre as ofertas do hotel, contavam-se, para além da garagem com capacidade para 70 veículos, uma sala de conferências para 150 pessoas e um salão de festas para cerca de 700 pessoas. Em 2006-2007, o hotel encerrou temporariamente para obras de reabilitação. Uma das suas “atracções” é o restaurante panorâmico, no topo do edifício, com a sua vista sobre Lisboa.
Uma curiosidade: quando da sua abertura, o Sheraton admitiu, entre as suas quatro centenas de trabalhadores, seis dos antigos empregados do Hotel Aviz.



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