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Olaria de Arados (do oppidum de Cacia ao presente esquecido) (Antero Leite)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 4 de jun. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020


Olaria de Arados na feira de Bustos
Olaria de Arados na feira de Bustos

Publicado na revista Sítios e Memórias, ano 1, n.º 3, julho de 1997

Texto e fotografias: Antero Leite

Achados arqueológicos no oppidum de Cacia confirmam a utilização da olaria pelos primitivos povos que habitaram a região do vale do Vouga e cuja cultura sofreu influência de várias civilizações, particularmente as de origem mediterrânica.

Da cerâmica helénica e da romana provêm as formas do vasilhame e melhorias na técnica de preparação da pasta. Aos mouros atribui-se a introdução da roda movida pelos pés, e sobretudo, o processo de vidragem para reduzir a porosidade da argila e aumentar-lhe a resistência.

Com estas alterações tecnológicas e beneficiando da expansão demográfica e do comércio marítimo, a olaria da região sofreu um grande impulso durante a Idade Média e mereceu a protecção de reis (1). No século XVI, Aveiro possuía já um bairro de oleiros situado no exterior das muralhas e exportava olaria. Aradas, Eixo e Vagos perto do litoral, e Ossela, no interior, eram centros produtores de louça doméstica que concorriam nas feiras e mercados com a cerâmica de outras regiões.

Na evolução da olaria do Baixo Vouga verificou-se uma fidelidade quase integra aos modelos originais, mas também novas peças surgiram em resultado das trocas culturais havidas no período dos Descobrimentos. É o caso do moringue, pequena bilha de gargalo estreito, originária da América, segundo alguns autores.

A louça em argila veio a perder a sua importância nas comunidades rurais devido à extinção da sua função específica pela distribuição de água canalizada às habitações e ainda em resultado da concorrência das industrias cerâmicas estabelecidas desde os fins do século XVIII e o aparecimento de vasilhame em metal (zinco e alumínio) e em plástico.

Hoje existem poucos oleiros na região. Em Aradas, um dos grandes centros da olaria, já não se modela e enforna barro. Ainda há poucos anos, trabalhavam dois artesãos, os Srs. José da Cruz Martinho e Adelino Laranjeira. Dos dois, o último foi o que mais tempo resistiu, mas acabou por desistir por falta de apoio e por razões de saúde. Já tinha “61 anos de barro”, arte de que gostava como nos confessou: “Podia andar chateado por isto ou por aquilo, mas chegava aqui a esta oficina de trabalho, começava a mexer no barro, a idealizar isto ou aquilo e tudo passava!”

A modelagem

Na preparação da pasta, o Sr. Adelino misturava duas qualidades de barro: o pobre, com pouca liga, e o barro forte, mais gordo. O primeiro trazia-o do barreiro das Almas, perto de Oliveira do Bairro; o barro forte ia buscá-lo a Bustos. Para a mistura utilizava uma máquina, mas, quando começou na arte, aos oito anos, chegou a calcar o barro.


Depois de feita a pasta, arrancava um pedaço (o ploiro), batia-o na roda e começava a levantar a peça com as mãos e sob o impulso do movimento rotativo. Depois de modelada a peça, separava-a da roda com um arame fino e colocava-a a secar ao sol. Só depois de muito bem seca é que a entornava. O oleiro modelava na roda apenas as peças de que não tinha molde. De todas, o alguidar era a que lhe dava mais trabalho, pois exigia-lhe “muito pulso”.

A cozedura

O forno do Sr. Adelino Laranjeira era encovado na terra (até à profundidade de 1,60m) e apresentava paredes interiores cilíndricas em tijolo burro, sendo mais largo na base (1,50m) e estreitando em altura média no topo cerca de 1m de diâmetro.

O acesso ao seu interior fazia-se por uma entrada aberta ao nível do solo e que o oleiro utilizava quando queria entornar. A loiça era disposta sobre um crivo em tijolo refractário e tapada com uma chapa coberta por terra. No fundo do forno, encontrava-se a caldeira que o Sr. Adelino enchia de lenha de pinho.

Depois de aceso o forno e após várias caldas de fogo até a loiça ficar vermelha, o oleiro procedia então à tapação do forno cobrindo a parte superior com uma chapa e sobre a qual deitava uma compacta camada de terra. Em seguida, enchia de novo a caldeira de lenha para dar à loiça a última calda de fogo. após o que tapava a entrada com tijolo refractário e terra. Nesta altura, o forno encontrava-se vedado de tal forma, que, segundo o Sr. Adelino, “não podia haver um buraco onde coubesse uma agulha de costura”. A lenha ardia por combustão lenta e o fumo, não podendo sair, enegrecia a loiça, ou seja, nas palavras do oleiro dava-se “um caldeamento de vermelho para o negro por a loiça estar abafada”.

A cozedura demorava cerca de 6 horas e, segundo o Sr. Adelino, a loiça ao cozer “vai mingando” e o segredo da arte estava em saber o momento em que devia terminar a cozedura. “A peça não pode apanhar fogo demais. Há por aí uns barometrozitos que a malta usa mas eu não. Isso às vezes falha.”

Por vezes, partia-se loiça na cozedura e isso representava um contratempo e prejuízo para o oleiro. Sucedia isso mais frequentemente no Inverno com as variações de temperatura e quando o barro estava mais húmido. Quanto mais seco este estivesse, melhor era a cozedura.

O Sr. Adelino não fabricava só loiça preta. Também trabalhava em barro vidrado, mas pouco. Sabia do risco que o óxido de chumbo empregue no vidrar representava para a saúde e contou casos de loiça recusada no estrangeiro por apresentar teores daquele composto superiores aos fixados na lei.

As peças que produzia em maior número eram as assadeiras e as caçoilas (para a chanfana, a caçoila preta é a melhor). Em outros tempos, chegou a dedicar-se a muitas outras peças, como púcaros, panelas, caçoilas de rabo, chicolateiras, cântaras para a água e cântaras para curtir a azeitona. Vendia-as nas feiras de Mira, Bustos, Palhaça, Vista Alegre (na ‘feira dos treze’) e nas praças de Oliveira do Bairro, Águeda, etc.

Na altura em que o vimos trabalhar, o Sr. Adelino previa que a arte de olaria em Aradas iria acabar. Mas procurou transmiti-la a um seu continuador, o oleiro Fernando Carvalho, de Esgueira, a quem vendeu a máquina, a formaria e o apoiou com ensinamentos. Reconhece-lhe qualidades: “já cozeu duas fornadas, uma de vermelho e outra de barro preto.” Esta não saiu muito bem, o que, na sua opinião, não admira, pois “é difícil um forno cozer bem à primeira vez. Tem que se tirar diferenças". Em Esgueira, a arte do barro, “um trabalho milenário, de um valor incalculável” (2) poderá sobreviver “havendo uma sociedade culta que o saiba aproveitar”(3).

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(1) Em diversas Cartas de Foral são concedidas isenções de tributos e portagens aos oleiros.

(2) e (3) Joaquim de Vasconcelios, Revista da Sociedade Industrial do Porto, 274 e 537 (cit. em Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, vol. V, IN/CM, 1982, p. 237).

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