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José Ferreira, o dourador mundial (Mário Nunes)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 24 de jun. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020


Publicado na revista Sítios e Memórias, n.º 1, de Março de 1997

Texto: Mário Nunes (Investigador. Presidente do GAAC)

Fotografias: Estúdio Rui de Almeida


O homem preocupou-se, desde sempre, em embelezar os objectos de seu uso. O livro, o objecto cultural por excelência, não podia constituir excepção, tendo surgido assim a arte da caligrafia, das iniciais, das iluminuras e da encadernação.

O Antigo Egipto dá-nos disso testemunho através dos chamados Livros dos Mortos, embelezados com representações mitológicas alusivas ao tema. Também na Grécia e em Roma (onde o livro passa da forma cilíndrica a rectangular, rompendo os limites que o rolo impunha à obra), prosseguiu essa tendência. Igualmente, os judeus e os árabes, não obstante as restrições que as suas crenças lhes impunham, ornamentaram artisticamente as suas obras.

O livro ilustrado mais antigo que se conhece é o Codex de Dioscórides de Anícia , sobre plantas medicinais. Depois deste, outros se seguiram, versando temas diversos, nomeadamente, a zoologia e a astronomia, a par de obras literárias clássicas e medievais.

Na Idade Média, aparecem as oficinas de copistas e iluminadores, onde artistas se esmeravam na produção de iluminuras, quer de cariz religioso , quer de cariz profano, que serviam a clientela privada. Não satisfeitos com a ornamentação interior, os monges da Idade Média enriqueceram e embelezaram as encadernações e respectivas capas dos livros litúrgicos com o marfim, o ouro, a prata e ainda com pedras preciosas. Os motivos escolhidos para as capas eram alusivos a arte clássica, bizantina ou céltica. Como exemplo, poderemos citar a capa de uma encadernação, datada do séc. XI, representando o arcanjo Miguel, ornamentada a ouro, incrustações e esmaltes tabicados, obra de rara beleza, pertencente ao tesouro de São Marcos (Veneza). Houve também.obras hebraicas e muçulmanas admiravelmente ornamentadas.

O Humanismo e o Renascimento deram um grande contributo para o alto nível de ornamentação do livro, desde a capa às ilustrações. Lucas Cranach, Holbein e Dürer foram alguns dos artistas que se salientaram pelas belas gravuras de que foram autores . As melhores tipografias deram à luz obras de grande beleza que se enquadravam na linha do desenvolvimento estético e no movimento de amor ao livro.

Também em Portugal, a douradura vem de longa data, como atesta o documento datado de 20 de Novembro de 1554, no qual a rainha Dona Catarina ordena que ao pintor-dourador Cristóvão de Morais seja entregue a quantia de vinte e seis mil réis, como pagamento de um trabalho por ele efectuado.

No século passado, a douradura ainda não constituía uma arte autónoma, mas sim um complemento da pintura ou da escultura.

O ofício de dourador teve regimento especial, dado pelo Senado da Câmara Municipal de Lisboa: primeiro, pela regulamentação de 1539 e, posteriormente, pela regulamentação de 1771, nas quais se decretava que estes artífices pertenciam a Bandeira de São Jorge. Foram arruados em 1718, juntamente com «Goadamisileiros, Batifolhas , Armeiros, Latoeiros e Ferreiros», e, ainda hoje, há em Lisboa uma rua denominada dos Douradores.

Em 1776, os douradores que pretendessem abrir loja tinham de ser irmãos da Irmandade de São Jorge e efectuar com aproveitamento um exame que constava de «aparelhar, dourar de água, de moído e de rasquete, pratear, estanhar, azular em nogueirão, dar cor de azul, branquear e envernizar de fogo».

Devido ao emprego de ouro mais espesso, os antigos douradores são considerados mais perfeitos. No entanto, os modernos trabalhos de douradura são superiores no respeitante aos acabamentos.

Obras magníficas pelo esplendor da sua encadernação, pelo brilho dos seus motivos decorativos e pelo requinte posto pelos artistas nos mais ínfimos pormenores são conservadas nas melhores bibliotecas (Vaticano, St. Gallen, Trinity College, Universidade de Coimbra, etc.) e na posse de alguns particulares.

Homens devotados ao trabalho da encadernação e da douradoura, estes artistas contribuíram para dar outra dimensão aos textos, enriquecendo-os extraordinariamente , transformando-os em autênticos templos da sabedoria e do engenho do homem e tornando-os mais aliciantes ao leitor.

o homem e o artesão/artista

José Marques Dias Ferreira é um dos douradores que sobrevive a uma plêiade de valores artístico-artesanais existente na velha Alta de Coimbra, sendo um dos últimos artesãos da douradura.

Nasceu em Coimbra, na freguesia de Almedina, em 3 de Março de 1918. Foi baptizado e casou na vetusta Sé Velha. Aprendeu a ler, a escrever e a contar na Escola Anexa da Alta e ali tirou a instrução primária. Cedo revelou curiosidade, interesse e sensibilidade para a actividade artística, mostrando especial predi lecção pelo desenho. Aos onze anos, começou a trabalhar no ofício de encadernador de livros na tipografia e editora Coimbra Editora, mudando mais tarde para a oficina de encadernação de Ismael de Almeida Chuvas. Naquela casa, teve o privilégio de conhecer e trabalhar com o dourador Floro Teixeira, o mestre que 'o exercitou no ofício de dourar livros e que lhe estimulou o gosto e a imaginação para a arte.

Insatisfeito e desejoso de aprender mais e obter maiores conhecimentos teóricos e práticos de desenho, matriculou-se, à noite, no Curso de Desenho Ornamental da Escola Industrial e Comercial Brotero, onde se salientou pelo talento artístico que demonstrou no desenho decorativo. Tirou assim com notável êxito o referido curso.

Consciente do valor do seu ofício e entusiasmado com as obras que criava para os clientes, aperfeiçoou progressivamente a sua maneira de produzir arte e dedicou-se, a partir dos vinte e quatro anos, quase em exclusivo, à douradura .

A qualidade das obras saídas das suas mãos e do seu intelecto permitiu-lhe participar numa exposição colectiva na Figueira da Foz, em 1948, e noutra, em Coimbra, em 1954.

Fruto do prestígio alcançado na douradura de livros foi a exposição individual de 1981, levada a efeito pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e que reuniu meia centena de encadernações de rara beleza e valor artístico. Assinalou um período de intensa actividade de dourador.

Em 1986, graças à qualidade dos seus trabalhos, teve a honra de ser seleccionado, a nível nacional, por um júri nomeado pelo Instituto Português do Património Cultural, representando Portugal no Prix lnternational de Reliure d'Art Germaine de Coster, iniciativa da Biblioteca Nacional de Paris, acontecimento realizado na capital francesa .

Os seus trabalhos, a partir daí, passaram a ser mais admirados, e o seu saber despertou entusiasmos a maior número de particulares e de instituições oficiais, especialmente da Universidade. Desta maneira, as lembranças oferecidas às entidades do País e do estrangeiro que são distinguidas em Coimbra pelo mérito que lhes é reconhecido auferem, quando se trata de obras literárias, artísticas ou científicas (livros), da criatividade e da arte de José Ferreira. Esta escolha tornou-o num vulto mundial, e os seus trabalhos distribuem-se por todos os continentes.

Basta recordar que Charles Verlinden , Ernesto Guerra da Cal, Alonso Zamora Vicente, Albert Silbert, o rei de Espanha, Jean Civatte, Aristides Pereira, Jacques Delors, João Café (Filho) , Kubitschek de Oliveira, Isabel li, Samora Machel, João Paulo lI, D. Duarte Nuno, Rui Alarcão, Lopes de Almeida, Bissaya Barreto, Maximino Correia, Costa Ramalho, rei Humberto de Itália, Braga da Cruz, Flrestan Fernandes, Jacques Chretien, etc., possuem obras de douradura saídas das mãos de José Ferreira. Porque a cidade não conhecia em profundidade o valor do artesão/artista , o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, em 1989, promoveu, no antigo refeitório do Mosteiro de Santa Cruz, uma retrospectiva da sua obra artística, mostrando aos milhares de pessoas que visitaram a exposição cinquenta e três livros dourados pelo mestre da Alta de Coimbra. José Ferreira tornou-se mais conhecido.

Esquecendo os elogios justos e merecidos que recebeu, vindos de todos os quadrantes sociais, religiosos e culturais, José Ferreira parece que refinou o seu valor de dourador, alcançando dia a dia maior notoriedade. Este valor foi salientado por toda a comunicação social e pela Câmara Municipal que, em 23 de Março de 1992, deliberou atribuir-lhe a medalha de Vermeil, galardão que a Assembleia Municipal confirmou em reunião de Abril.

Por sua vez, a Escola Secundária de Mangualde visitou, tal como o fizeram já outras, a oficina de José Ferreira, situada na Couraça dos Apóstolos. Deste encontro, nasceu a ideia de realizar naquela cidade beirã uma exposição da obra do dourador. O sucesso alcançado credibilizou novamente o valor deste cultor da douradura.

De 15 a 31 de Maio de 1992, no Arquivo da Universidade de Coimbra, diversas associações desta cidade decidiram também homenagear o dourador da Alta. Uma retrospectiva da sua obra nos cinquenta anos de dourador marcou a vida de quem se dedicou totalmente ao ofício que abraçou aos onze anos. José Ferreira sentiu-se recompensado do labor de cinco décadas. E prometeu... continuar.

Todavia, José Ferreira não é grande somente na douradura e na encadernação.

Humilde na grandeza da alma e marcante na dignidade de homem, apresenta-se como cidadão de plena inserção social e de esposo e pai consciente dos seus deveres familiares, sendo exemplo a seguir pela comunidade .

José Dias Ferreira, um virtuoso da arte de dourar livros, recorre, ainda agora, aos processos artesanais, utilizando ferramentas de extraordinária riqueza patrimonial, algumas com mais de 150 anos, herdadas de patrões. Outras são construídas pela sua habilidade e criatividade.

José Ferreira, um artesão/artista que ficará na história dos melhores douradores mundiais de livros.




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