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Mascatos: expressões de um artesanato tradicional (Rui de Abreu Lima)

  • Foto do escritor: Anibal Santos
    Anibal Santos
  • 24 de jun. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 3 de ago. de 2020



Publicado na revista Sítios e Memórias, edição n.º 1, de Março de 1997

Texto e fotografias: Rui de Abreu Lima


Olha-se a pequena figurinha, ingenuamente pura e quase rude, tal a falta de cuidado na feitura. Atenta-se na policromia da decoração e no esboço dos pormenores que procuram caracterizar o personagem, animal ou coisa. Surpreendemo-nos com os processos que nos permitem de imediato identificar o que o artífice nos procurou transmitir. Adivinha-se, quando não o indicia a presença de inúmeros múltiplos , que se trata de uma peça moldada, sem requintes que ocultem o modo como foi produzida. E , por sobre tudo isto, quedamo-nos fascinados, presos a memórias de infância de um imaginário povoado por figurinhas similares, a darem consistência aos momentos festivos maiores do nosso ciclo de vida, anualmente repetido como a feitura dos pequenos bonecos que continuam a prender a nossa atenção. Sem nunca se lhes atribuir um valor especial, apercebemo-nos como são imprescindíveis e constituem parte integrante das nossas vidas .

Expressões de um artesanato tradicional, encerram uma forte componente cultural, tornando-se elementos fundamentais de uma cultura popular; enraizadas numa "colectividade concreta, a determinadas concessões do mundo e da vida, a determinadas maneiras de agir, de sentir e de pensar, a determinados sistemas de normas e valores, a certas condições materiais de existência", materializam estética e simbolicamente a componente cultural do agregado humano que o determina.

E porque assim é, estas figurinhas simples vão povoar e dar expressão ao imaginário durante a grande festa do solstício de Inverno, para, tempo depois, encherem de colorido as primeiras festividades do solstício de Verão .

Curiosamente, o mesmo figurado vive tempos de festa com ritmos totalmente diferentes, já que a celebração do Natal é feita na intimidade quase secreta da família. onde o Presépio centra o culto do mais importante momento da liturgia cristã, celebrando a paz íntima que cada lar deve irradiar para a comunidade. Ao invés, as festas que consagram os Santos Populares são alegres momentos de convívio colectivo e público, ruidosas e cheias de alacridade, onde a dança e a música exprimem a consagração dos Santos que o povo considera como seus pares.

Conhecidos vulgarmente como bonecos de presépio, estas mesmas figuras de barro moldado e pintado, além desta utilidade original, surgirão em Junho nos tronos, cascatas e !apinhas, criando, quer num momento, quer noutro, a humanização do culto expresso no núcleo central que se consagra.

A Sagrada Família, no Presépio, ou o Santo António, São João ou São Pedro, no cimo dos seus tronos, humanizam-se, partilhando assim o quotidiano com um figurado de reis, pastores, ovelhas, moleiros, gaiteiros e outros ofícios, de mistura com construções como castelos, casas rurais, pontes, azenhas ou moinhos. Estas personagens do passado, ao conviverem com figuras contemporâneas de soldados, polícias, lavadeiras, músicos, etc. , criam uma intemporalidade que acentua o perpétuo de cada uma destas manifestações de culto.

Sendo hoje comummente aceite que a primeira encenação do nascimento de Jesus se deve a S. Francisco de Assis é, contudo , no séc. XVIII que em Portugal vão proliferar as esculturas de barro dos sumptuosos presépios que Machado de Castro e os seus discípulos haveriam de dignificar como verdadeiras expressões de arte.

A popularização desta actividade cedo começou, porém, a encontrar cultores que, progressivamente, foram difundindo o seu figurado, respondendo à apetência de cada um criar a sua própria expressão de culto, dentro das paredes do lar, aquando do Natal, mais tarde alargada ao agregado populacional de vizinhos, por ocasião dos Santos Populares. Há testemunhos desta actividade artesanal difundida um pouco por todo o País, sobressaindo no passado os núcleos nortenhos, centrados em Barcelos, o lisboeta e o alentejano, de Estremoz. São os avoengos mais próximos dos mascateiros que, mais tarde, haveriam de concentrar-se na região do Porto, de onde irradiariam para os Açores, zonas onde ainda hoje se podem encontrar as pequenas oficinas familiares, ou os artesãos isolados, que se dedicam à feitura deste figurado cujos bonecos são conhecidos por mascatos. O processo de fabrico em todos é idêntico: modelam o boneco que serve de matriz para fazer a forma em gesso, que depois passa a ser cheia com uma mistura de barro de liga e de barro simples, pressionado com os dedos, no chamado enchimento à lastra. Segue-se a fase da cozedura, em forno rudimentar de dois andares (a câmara de combustão e a de cozedura) e, finalmente, a pintura com materiais normalmente simples (água, cola e anilinas), finalizada com uma camada de verniz quase se pretende simular o vidrado.

Facilmente daqui se infere que a criatividade de cada artífice se traduz essencialmente na figura que modela, havendo os que se limitam a reproduzir figuras tradicionais e os que, a par destas, criam personagens contemporâneas, mantendo, contudo, o cunho de um figurado de características realistas.

Esta postura criativa tem como fonte inspiradora as figuras populares contemporâneas do artesão, pelo que a observação dos mascatos permite não só identificar a respectiva época de criação, como, simultaneamente, melhor conhecer os usos e costumes daquele período, já que, rejeitando a fase primitiva dos artistas clássicos (que procuravam recriar os tempos do nascimento de Jesus), cada vez mais este tipo de bonecos se populariza tornando-se acessível à compreensão e tendência do povo, que passa a ser figurante directo e a sentir-se integrado nestas ex pressões de culto.

Infelizmente, os mascateiros são cada vez em menor número, já que se trata de uma actividade nitidamente sazonal e de valor económico cada vez menor, face à crescente oferta de produtos similares , saídos das linhas de produção industrial.

Pena é que se perca esta expressão tão rica de uma actividade artesanal, que de forma objectiva e directa sintetizava todas as características do artesanato tradicional, autêntico património de uma cultura popular que nos identifica e diferencia de outras culturas e gentes .

Afinal, estas pequenas figurinhas policromas, ingenuamente puras e quase rudes na pobreza da sua feitura, revelam­-se de um valor e riqueza que justificam amplamente o subconsciente encantamento e sedução que transmitem, mesmo aos que as olham menos atentamente.


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