Escultor Melício: o artista e a sua obra na freguesia do Areeiro (Manuel Paquete)
- Anibal Santos

- 28 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de ago. de 2020
Publicado na revista AtuaLis, edição 23,
Texto: Manuel Paquete ( (o autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)
A escultura pública na freguesia do Areeiro inclui o nome de Jorge Melício como autor de duas grandes obras, ali localizadas, a que se juntam dois equipamentos, de função logística, que ainda assim mereceram o cuidado artístico do escultor. Mas, antes de nos determos nesses trabalhos, começamos por apresentar o escultor Melício aos leitores menos conhecedores da pessoa e respectiva obra.
Jorge Melício nasceu no Lobito, em Angola, no ano de 1957. Foi ali, ainda menino, que a sua sensibilidade despertou para o mundo das formas e das cores, maravilhado com um ambiente efusivo e colorido: “Após as fortes chuvadas, formava-se um barro que eu utilizava para modelar. Lembro-me que, por volta dos seis anos, peguei em várias caixas de cartão, das compras que os meus pais faziam, e fiz instrumentos musicais. Comecei também a pintar. Lembro-me das cores dos tecidos das roupas dos homens e das mulheres; dos rostos de mulheres pintados com pigmentos naturais e eu adorava ver isso”.
Outro contributo importante foi o meio familiar, como recorda: “Vim algumas vezes passar férias a Lisboa e o meu avô levava-me a passear e visitava, por exemplo, a Feira da Ladra, as lojas de velharias e museus; foi ele que me levou, tinha eu sete anos, à ópera no S. Carlos. Tudo isso despertou-me para novas perspectivas”.
As primeiras letras trouxe-as de África; mas foi em Lisboa, onde reside desde os nove anos de idade, que frequentou a Escola António Arroio, para onde entrou logo após o ciclo preparatório e depois a Escola Superior de Belas Artes, onde completou a sua formação académica.
A primeira encomenda, por assim dizer, obteve-a bem cedo, frequentava ainda o ciclo preparatório na Escola Nuno Gonçalves, graças a uma professora e ao director da escola, que assim reconheceram o talento do futuro artista. Infelizmente, esse trabalho já não está ali visível. Foi depois, já na António Arroio, escola que recorda pela superior qualidade do ensino ali praticado e importância decisiva na sua aprendizagem, que teve ocasião de obter outras encomendas: “Havia professores que davam trabalho a alguns alunos; fiz maquetas em gesso e cenários para o S. Carlos”.
Outra “escola” foi a vivida na passagem dos anos finais da Ditadura e dos alvores da Revolução de Abril: um tempo de ensinamentos, de ideias e ideais, e de amizades que foram perdurando pela vida.
Entretanto, como profissional, o seu currículo cresceu repartindo-se pelo desenho, a pintura, a cerâmica e a escultura em madeira, ferro, pedra, mármore e bronze, com inúmeras exposições individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro.
Durante as décadas de 1970 e 80 trabalhou bastante na escultura em pedra, no seu ateliê em Pero Pinheiro (Sintra), mas foi obrigado, para evitar problemas de saúde, a escolher outros materiais ao mesmo tempo que abraçou o Hiper-realismo (tamanho real da figuração humana) como linguagem estética, em que alcançou grande prestígio nacional e internacional ao lado dos grandes nomes daquela corrente.
A obra “A Família”, que se encontra no Jardim Fernando Pessa, é disso um exemplo. Trata-se de um conjunto escultórico composto por três peças em bronze: uma menina, sentada num banco, segura uma borboleta; uma senhora também sentada e dois rapazes, um deles de pé ao lado do outro, mais novo, sentado numa bicicleta.
Podia ser um instantâneo fotográfico de uma das muitas famílias que frequentam o jardim. Esta escultura hiper realista foi inaugurada em 17 de Julho de 2001, por iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Lisboa e da extinta Junta de Freguesia de São João de Deus. Melício sublinha que este grupo escultórico é não apenas visualizado localmente pelos frequentadores do jardim, mas também por milhares de cibernautas, pelo mundo fora, pelo que a obra se tornou uma das referências mundiais do hiper realismo.
Ainda na freguesia, nas traseiras do Edifício-Sede da Caixa Geral de Depósitos, encontra-se o monumento de cerâmica suspenso em arcos metálicos dedicado à Vida e Obra da Rainha Santa Isabel e Rei D. Dinis, um trabalho datado de 2004 em parceria com a poetisa Piedade Almeida.
Por sua vez, a encabeçar os topos este e oeste do Bairro do Arco do Cego, existem dois mapas em azulejo, com a planta dos arruamentos do bairro, ali colocados em 2001.









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